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quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Inta somethin'


Entre os trompetistas que eu aprecio, Kenny Dorham ocupa um lugar especial. Seu sopro traz características que muito me agradam: claro e direto, sem muitos adornos, com densidade e textura variáveis de acordo com o que solicita o tema interpretado.

Ouço agora o disco Inta somethin' (1961), que conta com a participação de uma figura de espírito indomável: Jackie McLean. Este traz como marca o som rascante, sem tremolos, direto, com forte pegada.

O autor do muito bem escrito encarte (John William Hardy), assinala que, nesse disco, a terminologia apropriada para definir a dupla seria "tradicional moderno". O termo traz não só o viés do mainstream jazzístico, mas a primitiva passionalidade que fulgura no sopro de ambos. À passionalidade acrescenta-se o modo como os dois usam seus instrumentos: "algo experimental sem serem experimentalistas".

A sessão rítmica fica por conta dos excelentes Walter Bishop Jr., Leroy Vinnegar e Art Taylor. O resultado final é um som que pode soar agressivo aos ouvidos conservadores (especialmente nas baladas), mas é merecedor de aplausos. Gostei e indico.

Link: Avax

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Um pouco de Pepper para a ceia de natal

Véspera da véspera do natal. Aproveito a hora do almoço para presentear meus amigos navegantes com um ítem de colecionador. Trata-se dos dois primeiros discos gravados por Art Pepper como band leader, reunidos no cd de título The Discovery sessions. O atrativo fica por conta das sessões originais aqui reunidas que, dizem, não estão no similar já aqui postado - Surf ride.

Pepper, vocês sabem, iniciou sua carreira ainda bastante jovem (com dezesseis já tocava nas noites de LA); antes, aos nove, já fazia umas graças para os amigos beberrões do seu pai (ainda tocava clarinete - o sax alto só veio aos doze). Sua habilidade como saxofonista rapidamente chamou a atenção dos grandes que circulavam pelos bares californianos. Figurinhas como o baixista Mandragon e o tenorista Dexter Gordon arranjaram-lhe uma série de trabalhos que consolidaram o seu nome na praça.

O encarte do cd que reúne esses dois trabalhos destaca que jovem, no entanto, queria poder soltar suas asas (os arranjos dos grupos que participara eram rígidos e não permitiam maiores devaneios sonoros). Veio, então, a oportunidade de, em 1952, gravar um 10' de 78rpm para o selo Discovery. O quarteto é basicamente o mesmo que trabalhou Surf Club: Joe Mandragon (baixo), Hampton Hawes (piano) e Larry Bunker (bateria). As faixas gravadas foram Brown gold (baseado na harmonia de I got a rythm), a balada These foolish things, a conhecida Surf ride e Holliday flight (ambas com levada blues).

Em 1953, Pepper voltou à cena para gravar mais algumas faixas, desta feita ladeado por outros grandes músicos: Russ Freeman (piano), Bob Whitlock (baixo) e Bobby White (bateria). As faixas gravadas foram Chilli Pepper, Suzy the poodle, Everything happens to me e Tickle toe.
Após uma pausa de um ano (período em que foi preso por porte de drogas e teve que fazer uma desintoxicação básica), retornou ao estúdio para gravar, agora com um elemento mais - o tenorista Jack Montrose - que implicou em substancial alteração na sonoridade, mas sem perder a criatividade e a leveza. Completam o time Claude Williamson (piano), Mont Budwig (baixo) e, revezando na bateria, Paul Ballerina e Larry Bunker. Foram gravados 11 temas (no cd tem vários alternates takes), entre eles Straight life, que deu nome à sua auto biografia.

Link: Avax