terça-feira, 2 de setembro de 2008

A primeira noite do Armazém

Estive, ontem, no Porto, para ouvir as apresentações programadas para a primeira noite do Festival de jazz. Fiquei feliz em ver o Maestro/Saxofonista Antônio Paulo conduzindo os jovens e promissores alunos da faculdade de música. O repertório, bem selecionado, incluía temas como Stolen moments, Scrapple from the apple, Spain e uma versão bem moderna de Na baixa do sapateiro (o maestro uniu elementos jazz-funk de modo bastante satisfatório).


O quarteto liderado por Turi Collura, como esperado, tocou jazz de primeira e se permitiu algumas boas brincadeiras com temas de desenho animado (Popeye - uma homenagem ao baterista Edu Szajnbrum, que estava muito bem na condução do seu instrumento) e seriado de tv (Batman). Daniel Dias, ao trompete mostrou porque é o melhor instrumentista do ES: sopro vigoroso, com feeling e swing. O seu filhote Felipe Dias mostrou segurança com o baixo elétrico: o fruto não caiu longe da árvore. A participação especial ficou por conta da cantora Neusa Scorel, que interpretou dois balançados blues (os nomes me escapam agora).

O último show da noite foi um presente para quem ficou até o fim. Ouvir Jota Moraes ao piano, Mauro Senise com seu sopro fantástico, Pascoal Meirelles passeando com a bateria, o baixista André Neiva e sua precisa marcação, mais o dançante percusionista Mingo Araújo é uma experiência que merece ser repetida (aliás, na semana que vem, Senise estará ao lado de Peranzeta, no Carlos Gomes). O virtuosismo técnico desses grandes nomes da música instrumental brasileira é algo que toma de assalto o nosso espírito. Deixarei no podcast do jazz contemporâneo duas faixas do cd Água de chuva para vocês conferirem.

Alguém que lá foi poderia, surpreso, me perguntar: Como você conseguiu ouvir o som que os músicos apresentaram? A resposta seria "com algum esforço". Se comparado com os shows da Bossa Nova, que aconteceram no mesmo local, ontem estava bem melhor. A Equipe Sombra, mesmo com os restritos equipamentos disponíveis, conseguiu reduzir um pouco o nefasto efeito colateral de um ambiente com o pé-direito muito alto e sem tratamento acústico adeqüado. A excessiva reverberação amplia qualquer bate-papo no bar (o fundo do espaço) tornando-o uma avalanche sonora muito desagradável. Eu fui para a fila do gargarejo para conseguir ouvir melhor, mas, mesmo assim, nos momentos mais sutis, quando os músicos se arriscavam num pianissimo a gente não conseguia ouvir nada (a conversa do público atropelava tudo).

O fato é que uma boa idéia, uma boa iniciativa pode naufragar em função da ausência de coisas básicas, especialmente quando se trata de artes cênicas e música: uma boa acústica, um bom equipamento de som, uma boa equipe técnica para segurar as ondas e um público que colabora com o espetáculo. Estamos perdendo de três a um (os técnicos de som e palco parecem conhecer o ofício), mas ainda há tempo para virarmos o jogo.

5 comentários:

Turi disse...

Vinyl,
a primeira música que nós tocamos era o tema da Warner Bros "Looney Tunes", outra "interferência" de desenho animado. A primeira música que a Neusinha Escorel cantou foi "Why don't you do right", tema cantado por Jessica Rabbit no film/desenho animado "Quem tramou Roger Rabbit".

Sergio disse...

"O fato é que uma boa idéia, uma boa iniciativa pode naufragar em função da ausência de coisas básicas, especialmente quando se trata de artes cênicas e música: uma boa acústica, um bom equipamento de som, uma boa equipe técnica para segurar as ondas e um público que colabora com o espetáculo."

As vzs a diplomacia atrapalha o bom entendimento do recado. Uma boa acústica só um investimento proporcional e/ou a mudança do espaço resolve, um bom equipamento, idem para "investimento"... Agora, "um público que colabora com o espetáculo". Esse é o único ítem que pode facilmente (facilmente?) ser revertido. Quando a educação não vem do berço, uma boa programação/comunicação visual - do tipo q se usa em hospitais - pode ser um atenuante interessante. Muda-se, claro, a enfermeira q faz "psss". para uma imagem q mais se aproxime do objetivo e, ao invés dos da platéia fazerem chiarem, olham graves pros "esporrentos" e apontam o cartaz que pede silêncio.

Ps.: Vinyl, por favor, deposite os royalties na mimnha conta-corrente.

Salsa disse...

Turi e Sérgio,
Agradeço as colaborações. O show, então, foi mesmo uma grande viagem pelo universo da telinha. Eu me diverti bastante. Destaco o feeling da banda quando rolou aquela microfonia: parou um instante - como se fizesse parte da música - e retomou de onde parou. Beleza!
Sérgio, sua sugestão é mais que bem vinda. Chegamos a conversar com o produtor para que algo fosse feito nesse sentido. Aí o jogo ficaria 2x2.
Abraços,

Turi disse...

Um video de Popeye (num momento em que tudo estava rolando bem):
http://it.youtube.com/watch?v=mCzN0gA87oE

Kiko disse...

Salsa.
Obrigado pela cobertura precisa do evento. Obrigado também por valorizar a equipe "Sombra",pois é um trabalho difícil de se notar e alvo fácil de críticas. Todos os artistas e em especial Pascoal Meirelles, e o Ray Moore elogiaram muito o trabalho desses "anjos" que atuaram no escuro do palco. O que ninguém sabe é que, depois da estréia, essa equipe foi ao fornecedor de sonorização do espaço e substituiu para o dia seguinte muitos equipamentos básicos de som que estavam em más condições, tudo isso a muito custo. Uma lástima.
Mas, o segundo dia foi melhor e no fim só nos sobrou o problema da acústica e o falatório do público. Do público eu não tenho do que reclamar (eles mereciam ouvir um grande show) e da acústica, eu só tenho é de buscar soluções viáveis para um espaço que não é do poder público, mas de um convênio entre CODESA e PMV. Qualquer investimento milionário no local seria inviável. Se o convênio acaba, todo o trabalho pode ir para o ralo.
Nós da "Extrata - Circuito Vitória do Jazz" estamos devendo um show descente ao meu amigo “Salvatore Collura”, ao Cama de Gato e à FAMES. O público merece.
Em breve (Buscamos com afinco) teremos novidades de show e para a acústica do espaço.