quarta-feira, 5 de outubro de 2011

De volta pra casa


Caramba, como foi difícil achar um maço de continental sem filtro! Consegui achar um, já amarelado pelo tempo, no armazém do Agenor, em Mucurici.

Enfim, cheguei no meu quintal. E encontrei na caixa postal um cd que me foi enviado do japão. O disco é um disco de música brasileira, com direito a banquinho e violão (curioso como os japas curtem os sons do mundo). Pilotando os dois instrumentos está Pituco Freitas. Um cara corajoso, esse tal Pituco. Enfrenta godzilas, tsunamis, terremotos, furacões e o desafio maior de, com a voz e os acordes do seu violão, defender temas
de figuras que não primam pela simplicidade, como é o caso de Johnny Alf. O resultado foi um disco agradável de se ouvir, que merece ser ouvido e reouvido. E foi isso que eu fiz.

Estiquei-me na rede, liguei meu continental curtido e abri a garrafa de cipó-cravo que ganhei em São Mateus e deixei o cd rolar com o repeat ligado.

Curtam Disse alguém (versão sensacional de All of me, já defendida por João Gilberto) e Eu e a brisa.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Medeski, Martin & Wood + Bill Evans at Rio das Ostras



O show mais esperado pela meninada que dominava a platéia do sábado, enfim, estava começando: o power trio Medeski, Martin & Wood mais o saxofonista Bill Evans foram anunciados.
O som começou pesado como se esperava. E lá estava eu, tomado pelo clima rocker, fusion, jazz. Descobri, logo nos primeiros acordes, do que eu senti falta no show dos casacos amarelos: a paixão, a volúpia, que teve de sobra na apresentação do trio novaiorquino.

A performance do baterista Billy Martin é contagiante. Mão pesada, Billy não tem pudor em descer o bambu nos tambores e pratos, e, nos momentos de possessão, chegava a tocar em pé. O baixista Chris Wood mostrou um vasto domínio do seu instrumento, seja elétrico, seja acústico. Abusou, até, quando sacou o bottleneck e começou a deslizar pelo braço do seu instrumento, produzindo uma sonoridade ímpar (cf no vídeo).


O tecladista John Medeski buscava progressões harmônicas simples, mas sem deixar de trafegar em linhas outsides, mantendo a cama arrumada para o time brincar à vontade. Bill Evans, o saxofonista convidado, não negou ao que veio e mostrou sua verve funk-jazz com uma fluidez exemplar. O clima foi de festa, tanto no palco quanto na platéia.

Para mim, o festival terminou aí. Voltei feliz para casa.

Nicholas Payton Sexxxtet at Rio das Ostras 2011


Dom Casmurro - foi assim que alguém se referiu ao trompetista Nicholas Payton, que fez o segundo show da noite de sábado. Realmente, o cara não estava em seus melhores humores (se é que os tem). Casmurrice à parte, estava eu preocupado com o que seria apresentado no palco principal: se o rolo compressor fusion de alguns de seus trabalhos ou se seria levado pelas águas do mainstream jazzístico.

Não aconteceu nem um, nem outro. Payton, no entanto, manteve sua verve de experimentador e seguiu por um mix soul-jazz, com arranjos até interessantes, buscando explorar a sensualidade e a introspecção peculiares ao ritmo. Arriscou-se até, a la Chet Baker, a umas cantorias (que muitos acharam dispensáveis). O uso do rhodes favoreceu aquele clima do final dos sessenta (especialmente encontradas nas baladas do Return to forever). Pra não dizer que não tocou nenhum standard, sapecou uma versão interessante de Days of wine and roses (veja aqui).

Deixarei o vídeo de seu novo trabalho:

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Rio das Ostras: A noite em que a platéia calou


Quando a noite caiu sobre o sábado não trouxe nada que augurasse tragédias para o palco da Costazul. Ela chegou clara e fresca. Quando os problemas começaram a surgir, pensei que a nau naufragaria. Foi então que entrou em cena o Javier,técnico de som que acompanha o pianista cubano
Roberto Fonseca.

Sim, essas linhas iniciais são para agradecê-lo pelo excelente trabalho: graves, médios e agudos, tudo em seu devido lugar. Algo que até então não acontecera com tamanha eficácia. Explicou-me Javier que, em determinados momentos, tem-de que produzir alguma mágica. E ele conseguiu.

Enfim, era uma noite de magos. E o mago que dominou a cena e a platéia foi o pianista Roberto Fonseca. Ainda durante a passagem de som, constatou que havia algumas teclas do Steinway que estavam agarrando (cf. foto). O show atrasou em função do problema, que não foi resolvido. Tudo estava nas mãos e dedos do jovem cubano, que não titubeou: o som começou com um clima que rapidamente dominou o público.

A magia que emanava do piano e de toda banda (não se ouvia aquela porradeira que costumamos equivocadamente associar aos ritmos latinos), a leveza das performances dos músicos, o perfeito equilíbrio, a dinâmica impressionante que os músicos
conseguiam impor nas músicas interpretadas são elementos raros de se ouvir.

O momento mais envolvente está no vídeo (perdi algumas notas no início): a bela balada que fez a platéia calar-se. Momento de um impressionante lirismo que embalaria a alma mais dura. Para mim, já seria suficiente para uma noite.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Casacos amarelos


A noite de sexta ainda trouxe dois shows: Yellowjacket e Nuno Mindelis (este, deixei de lado pois já assistira à tarde). Permiti-me assistir a apresentação do primeiro. Queria ouvir de perto o sopro de Bob Mintzer, um dos grandes nomes do saxofone contemporâneo.

O grupo fundado pelo tecladista Russell Ferrante e pelo baixista Jimmy Haslip é uma referência quando se fala na fusão de jazz com as diversas linguagens do universo pop. O grupo, não há como dizer o contrário, é competente dentro de sua proposta. No entanto, apesar de Haslip afirmar (no release) que eles sempre buscam o novo, a sonoridade e a estrutura dos temas ainda parecem estar firmemente ancoradas duas ou três décadas atrás. Essa constatação seguiu-se de uma boa dose de enfado, que fui curar com doses de outras bebidas mais compatíveis com meu paladar.


A bossa da Jane

Jane Monheit sucedeu José James no palco principal. A distância entre as performances dos dois astros foi, ao meu ver e ouvir, grande. Ainda contaminado pela força do primeiro show, julguei a apresentação da serpeante renascentista Jane Monheit um tanto quanto frágil.

Minha opinião, no entanto, foi um pouco modificada ao assistir os vídeos que gravei. O fato é que as propostas são bastante diferentes. Jane mergulhou no great american song book e também, para a alegria do público, sapecou uma série de bossas, e por aí ficou. Ela fez interpretações comedidas mas honestas (embora eu dispensasse as bossas - essas sim, frágeis). Jane é uma cantora que sabe usar os seus recursos naturais, mas, pode ser impressão minha, pareceu-me que ela acha possuir mais do que realmente tem. Acho que o som vai bem num coquetel ou num jantar íntimo. Pano de fundo, pois.


segunda-feira, 27 de junho de 2011

José James


À noite, na sexta-feira, titubeei em ir assistir o show de abertura, pois fui convidado por uns músicos para uma jam. Como o som estava demorando e o pessoal estava com muito "profissionalismo" para meu gosto, eu resolvi me mandar pro palco principal e apreciar os shows programados. Enfim, este era o lugar apropriado para profissionais.

São esses acontecimentos que me fazem acreditar em deus. Por pouco, muito pouco, eu teria deixado de assistir o show espetacular protagonizado por José James e banda. O jovem magrelo e com visual de rapper, nascido em Minneapolis, mostrou-se um gigante quando segurou o microfone e começou a entoar os temas que escolheu para a sua performance. Ouvi embevecido as interpretações de, entre outras, Save your love for me, Equinox e Moaning (esta, que finalizou o show, está no vídeo postado).

José James é, sem sombra de dúvida, um cantor de jazz. Dos bons. E nada ortodoxo - os seus arranjos conjugam com elegância elementos da tradição com a sonoridade contemporânea. Sua performance foi uma das que conseguiram deixar a platéia ligada do começo ao fim.

A praia de Tommy Castro - Rio das Ostras 2011

A tarde de sexta-feira estava azul. Céu aberto e com sol agradável do inverno. O dia começou a esquentar com a chegada do californiano Tommy Castro ao palco da Lagoa de Iriry. O clima estava apropriado para o guitarrista mostrar um pouco do blues da costa oeste.

Tommy, 56 anos, traz no seu currículo o prêmio de melhor bluesman de 2008 (Blues Music Award for Entertainer Of The Year) e uma consolidada carreira. O seu som tem algo de funky/soul com uma boa dose de r&b. Os arranjos lembram, em alguns momentos, o balanço de James Brown. Muito colabora para isso a presença do naipe de sax e trompete. Ficará fácil para vocês perceberem ao assistirem o vídeo postado a baixo (Nasty habits).

O início do show, para não perder o costume, deixou o som dos sopros fora da cena. Felizmente, o "técnico" acertou logo depois. Apesar dos tropeços da sonorização o resultado final foi de muito balanço, culminando com uma jam explosiva em cima do tema Sex machine, do bom e querido Brown.

Bryan Lee at Rio das Ostras



O pessoal que curte a seara do blues deve estar rindo à-toa. A produção do festival de Rio das Ostras caprichou bastante nesse quesito (possíveis dedinhos do Big Joe Manfra e de Jefferson Gonçalves). Entre os que participaram da bela festa, agradou-me bastante o show de Bryan Lee (aka Braille Blues Daddy), o
representante de Louisiana .

Cego desde os oito anos, restou a mr. Lee organizar seu universo com sons. Sons de guitarra, de escalas blues e de muitas estórias contadas entre as pungentes interpretações realizadas por sua banda. Banda excelente, por sinal. O baterista John Perkins não tirava o sorriso do rosto
enquanto batia com força os seus tambores, segurando a pulsação com o auxílio do baixista Slim Louis. Destaque para o jovem guitarrista Brent Johnson, que, além de belos solos, propiciou diálogos sensacionais com o band leader.

Curtam um pouco no vídeo produzido por esse escriba:




domingo, 26 de junho de 2011

Rio das Ostras 2011 - 5


Azimuth

A dose de saudosismo, pelo menos para este que lhes escreve, foi ouvir e ver o mais que memorável trio brasileiro: Azimuth. Lembrei-me da boa estranheza causada pela audição, em meados dos anos setenta, do lp responsável pelo primeiro grande sucesso do grupo: Linha do horizonte (tocado no final do show). Eu, na
época, fã ardoroso do rock'n'roll, me deixei levar pela sutileza e também pelo peso que havia (e ainda há) na mandada do trio.

A apresentação em Rio das Ostras mostrou que José Roberto Bertrami, Ivan "Mamão" Conti e Alex Malheiros mantêm a verve musical que estava presente no início de suas carreiras. O toque smooth, a leveza dos arranjos (não se ouve aquelas convenções ultra complicadas de alguns contemporâneos) e a precisão nas interpretações são componentes que tornam o som do trio
altamente acessível para todos os ouvidos. E lá estava uma platéia atenta e participativa, mais que mera testemunha, cantarolando os temas mais conhecidos do nosso Azimuth.

PS - Leo Gandelman participou do lance.

Rio das ostras 2011 - 4

Saskia Laroo

O segundo show da noite de quinta-feira foi o da trompetista Saskia Laroo. Querem-na versão feminina de Miles Davis e, considerando a sua apresentação (cf o vídeo), ela bem que tem uns tiques milesianos.

A trompetista cinquentona, mas cheia de energia, se diz chegada num amplo leque de estilos: do jazz à world music. Gosta de experimentar, a maluquinha - coisa dos nascidos em Amsterdã. Para isso, ela conta com a ajuda do pianista/tecladista Warren Byrd, que também parece gostar de uma viagem.

A faceta experimental da holandesa foi apresentada nos palcos de Rio das Ostras ao reunir rappers, percusionistas e pedais para turbinar seu instrumento. O resultado desagradou os puristas (que preferem-na atacando os standards do songbook americano), mas agradou a meninada, que foi ao delírio.

sábado, 25 de junho de 2011

Rio das ostras 2011 - 3

Quinta à noite - Palco principal
Ricardo Silveira

Cheguei cedo ao palco principal para ver a passagem de som e curtir o vai e vem da produção. O bom de ser credenciado como membro ativo da imprensa é poder ir ao backstage ver os preparativos dos músicos. A rapaziada procurando camarins, encontrando amigos de outros festivais e, melhor, eu, com meu inglês "debukizondetêibou", entabulando longas conversas com os astros de plantão.

Quem chegou junto comigo foi o grande guitarrista Ricardo Silveira, que veio acompanhado com um time de primeira, incluindo o excelente naipe formado por Jessé Sadoc e Marcelo Martins, o baixista Rômulo Gomes e o grande astral e baterista André Tandeta (que também tem suas cicatrizes de tombos de moto - a coisa foi mais tensa pro lado dele do que para o meu).

O guitarrista falou-me um pouco sobre seu novo disco, Até amanhã, e sobre seu percurso desde Bom de tocar, o primeiro sucesso, lançado há 26 anos. O disco traz antigas canções com arranjos muito bons (eu tenho o cd) e novos temas em que se percebe aquilo que o guitarrista afirmou no nosso papo: seu vocabulário musical cresceu bastante com o passar do tempo, permitindo-lhe usar elementos especiais em cada tema executado.

A indubitável habilidade de Ricardo Silveira como instrumentista é corroborada pelos inúmero convites patra tocar com os grandes nomes do cenário internacional (Grusin, Toots, Metheny, Ernie watts e mais um monte de gente), reforçando o seu nome como uma referência para os apreciadores da guitarra. Modesto, perguntou-me se o seu som teria a ver com a cena da noite (ele abriria os shows). Respondi-lhe que os outros é que deveriam se preocupar em manter o nível. Palavras que se confirmaram com a excelente performance da banda.

O senão fica por conta dos técnicos de som que, mais uma vez, pisaram na bola (já havia acontecido no show de Mindelis). O naipe só passou a ser ouvido na metade do primeiro tema - o solo de Sadoc passou batido e o de Martins só foi possível ouvir quando estava no final. Lamentável. Segundo Martins, isso sempre acontece. Deve existir um complô contra os sopros.



sexta-feira, 24 de junho de 2011

Rio das Ostras 2011 - 2

Nuno Mindelis


Após o desencanto causado pelo mau encontro com o olímpico Hermes, resolvi afogar a fúria com algumas doses de puro malte e cerveja e curtir o som das duas da tarde: o bluesman Nuno Mindelis.

Para mim, a Lagoa de Iriry é o melhor local para assistir os shows. A proximidade entre músicos e platéia propicia um astral sensacional. Dá para perceber a satisfação chapada na cara dos músicos, que até esquecem as dificuldades que vez e outra pipocam com a sonorização.

Mindelis tocou clássicos do estilo e composições de sua lavra. Nota-se com facilidade que é um blueseiro com linguagem mais moderna. As suas composições e performances sempre têm passagens mais
dissonantes e estrutura harmônica que fogem um pouco à tradição. Mas o que importa mesmo é que a galera curtiu, pediu bis e foi prontamente atendida.

Rio das ostras 2011 - 1

PAGUEI E NÃO LEVEI

Como de hábito, alguma coisa tinha que dar errado. Isso faz parte da minha estória (assim mesmo, com e). Cheguei ao hotel e constatei a presença do (in)esperado, que já penso tratá-lo com mais intimidade - FDP, por exemplo.

Pois bem, a minha reserva não estava reservada. Conferido estratos (depositei em cash), nada havia que lembrasse a suada quantia depositada. Pior, não trouxe o recibo. Hermes, o deus dos ladrões, deu um jeito de ficar com meus 325 contos.

É provável que eu tenha depositado na conta de algum seguidor do citado deus olímpico, que já deve ter detonado até o último centavo. Prevalece o ditado do sul dos EUA: Don't worry about the thing, 'cause anything gonna be allright.



quarta-feira, 22 de junho de 2011

Going to jazz & blues festival


Amanhã, às 6:00 a.m., partirei para Rio das Ostras para mais uma jornada lúdico-etílico-musical. A programação do festival deste ano, seguindo a tendência dos anteriores, privilegia os sons mais contemporâneos.

A principal atração, Medeski, Martin & Wood mais o saxofonista Bill Evans, é promessa da alta octanagem que deverá permear todo o evento. Outra figurinha carimbada é o grupo Yellowjackets, também conhecido por sua levada fusion.

Nicholas Payton pode ser o que mais se aproximará do mainstream jazzístico (obviamente, isso dependerá do seu humor). Jane Monheit, a bela musa responsável pelo lirismo da parada, nem precisava cantar: a sua
presença já satisfaria esse solitário coração. A curiosidade fica por conta da trompetista Saskia Laroo que, dizem, bate um bolão.

O lado blues está repleto de opções: Mendelis, Tommy Castro, José James, Bryan Lee e mais uma porrada de gente. Momento em que o velho jack sairá do alforje.

O kit sobrevivência, já organizado, inclui quatro garrafas de vinho, meia garrafa de uísque, meia garrafa de conhaque, dois coronas, dois envelopes de dipirona e uma caixa de omeprazol.

domingo, 19 de junho de 2011

FECHADO PARA REFORMAS


O quintal manter-se-á sem postagens durante um tempo.
Razão singela: passará por necessárias reformas. A repaginada será geral.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Jazz, Whisky & Something Else


Prezados navegantes,
No próximo dia 17, às 20:00h, estarei no Ponto de Encontro (anexo etílico-cultural da ADUFES) para uma noitada de jazz com meus amigos Caco Dineli (baixo acústico), Bruno Venturin (teclados) e João Augusto (bateria).
Aguardo-vos.

domingo, 29 de maio de 2011

Bons encontros


Fim do domingão.

Penso numa das verdades do seu Acácio: quando a sorte lhe sorrir, abrace-a. Não uma sorte qualquer, mas aquela que, quando sorri, ecoa no seu corpo como um leve terremoto. Abrace-a, mesmo que o chão abra aos seus pés. A queda valerá a pena.

Com essa idéia na cabeça, abro uma garrafa de syrah (uva que regou um desses momentos de vôo livre) e coloco na vitrola um disco que muito aprecio, gravado no bom ano de 1959: Herb Ellis meets Jimmy Giuffre. Dupla que dispensa apresentações. Cenário completo.

A encantadora simplicidade com que a música flui desse velho lp é apropriadíssima para embalar as boas (e levemente melancólicas) lembranças que me envolvem. Vocês entenderão o que estou falando quando, por exemplo, ouvirem Patrícia, o solo defendido por Ellis. Citar uma faixa do lp, no entanto, é injustiça com todas as outras sete, também deliciosas, que compõem essa preciosidade.

A tribo westcoast é aqui representada por Art Pepper, Bud Shank, Richie Kamuka, Jim Hall, Lou Levy, Joe Mondragon, Stan Levey. Querem mais? Ouçam ali na radiola.

Link: Avax


sexta-feira, 20 de maio de 2011

Rugolo


Camarada, a dor dói mais quando está sarando. Lógica infernal. O tecido novo, cicatrizante, está mais sensível. Trocar o curativo, hoje, foi uma experiência vertiginosa. Lembrei-me de um poema que escrevi por outras dores há alguns anos. Parece que mandou uma irmãzinha para se vingar:
Sim,

não tive pena da Dor

e a sufoquei sem piedade.

Deixei-a gemer e espernear

– criança sem palavras –

e ela uivou pra lua

como uma loba no cio.

Sem dó arranquei suas unhas e presas

e a deixei sangrando, indefesa,

à mercê de outras, famintas,

da sua espécie.

Sim,

e quando a fúria, impotente,

brotou em seus olhos

eu os furei com ferro quente.

Ó Dor, cega e muda,

por mim esquartejada

e abandonada aos cães:

não sei do seu sepulcro,

não li sua lápide

e não te ofereço nenhuma prece.

Agora, chuva chovendo na minha janela, busco algum bálsamo para a dolorosa mordida do destino. Arrisco-me com um maluco que tinha entre seus ídolos Stravinsky e Bartok. O nome do camarada é Pete Rugolo, compositor e arranjador californiano, maluco e querido por todos os jazzistas da costa oeste.

Rugolo gravou alguns discos com formações pouco ortodoxas: dez trombones e dois pianos, dez trumpetes e duas guitarras, dez saxofones e dois baixos; gravou também um disco dedicado à percussão. O cd que estou escutando reúne os quatro discos citados: Exploring new sounds. Aqui você poderá ouvir quase todos os grandes músicos de jazz daquelas plagas. Viagens mil. Deixarei quatro faixas na radiola.

Link: Avax


quinta-feira, 19 de maio de 2011

Joanne

Minha Shadow 600 foi internada hoje. Escoriações diversas a deixarão longo tempo em repouso (peças importadas e coisa e tal), mas ela ficará melhor que antes - estou decidido quanto a isso. Eu, cá, retorno da troca dos curativos...

Recosto-me na velha poltrona e ligo a eletrola ídem. Quero ouvir um vinil há muito por mim esquecido: um disco da bela pianista Joanne Grauer. A menina de formação erudita não resistiu ao apelo do jazz e se lançou de corpo e alma nos seus braços. A relação foi boa e rendeu bons frutos. Um deles - ...Trio - nasceu em 1957, tendo com auxiliares Buddy Clark e Mel Lewis.

Observem como a bela balança quando passeia pelas teclas de seu piano interpretando Mood for mode, de sua autoria. Mãos firmes, ela sabe como usar força e suavidade para embalar esse coração arranhado. Ouçam também a passionalidade que cerca a sua versão solo de Invitation, intensidade a toda prova. Sim, Joanne é intensa como um bom cabernet. Experimentem um pouco ali na radiola.

Link: Avast

Parlan

Estou no estaleiro. Um caminhão derrubou-me na br 101 norte, quando ia para o trabalho. Mãos raladas, apenas (estava sem luvas). O capacete e a jaqueta nova seguraram a onda.

Um bom remédio para a incômoda dor que me guarda é ouvir um pouco de boa música. E isso, ainda bem,
eu tenho em boa quantidade nos hds e estantes do meu quarto.

Agora, duas da manhã, ouço Horace Parlan, pianista não muito cotado na bolsa mas que me agrada pelo balanço de suas
composições e interpretações. O disco em questão é Speakin' my piece, no qual se fez acompanhar pelos irmãos Stanley e Tommy Turrentine, mais George Tucker e Al Harewood.

Deixo-vos com os acordes de Rastus

Link: Avast



sábado, 7 de maio de 2011

Há algum tempo, dois ou três anos, estava na casa do Lester ouvindo uns discos que Acácio levara para servir de trilha sonora para mais um relato de suas aventuras musicais-etílico-amorosas. Não sei porque Lester, o biógrafo quase-autorizado do bon vivant, ainda não a reproduziu. Não, eu não o farei. Restringirei-me a falar um pouco sobre a trilha sonora.

Enquanto Acácio, com olhos brilhantes, falava-nos de uma passagem por um dancing club em NY, onde conhecera a bela Laura Carlton (mostrou-nos a foto), mais um de seus eternos amores, rolava uma orquestra na radiola. A época, início do sessenta, destaque-se, as orquestras estavam em plena decadência e os dancings seguiam o mesmo caminho. Havia, no entanto, algumas que resistiam. Uma delas era a capitaneada por Maynard Ferguson (falecido em 23 de agosto de 2006), um dos poucos trumpetistas que conseguem trafegar com elegância pelos agudos do seu instrumento - tarefa mais que difícil. E foi sob o manto sonoro estendido pela orquestra do trumpetista que Acácio presenciou a chegada epifânica da musa que, naquela noite, eternizou-se em sua vida. Bem, algum dia, espero, vocês terão mais detalhes sobre essa passagem acaciana. Voltemos aos discos.

Maynard ferguson and his Orchestra plays jazz for dancing e Let's face the music and dance, gravados em 59 e 60, foram realmente produzidos para se dançar. Os dois discos estão reunidos no cd Dancing sessions. Os arranjos balançados e os bons solistas tornam aprazível a experiência de ouvi-los e, confesso, quase fez com que eu seguisse o conselho de Acácio e procurasse uma escola de dança para aprender uns passinhos básicos.

Ouçam dois teminhas: Soft wind e Stompin' at savoy