sexta-feira, 19 de junho de 2009

Violão brasileiro

Hoje eu ainda não escreverei especificamente sobre jazz, mas continuarei na seara musical. Fui convidado por Lídia e Beatriz, responsáveis pela organização, em Vitória, dos projetos desenvolvidos pelo SESC, para assistir o concerto de dois excelentes violonistas, Daniel Wolff e João Pedro Borges, que, sob os auspícios dessa instituição, estão circulando o Brasil para apresentar a sua arte.


Falemos, em primeiro lugar, sobre o projeto Sonora Brasil, que trouxe os dois grandes músicos a Vitória. Trata-se de um belo esforço para divulgar e formar ouvintes para a música brasileira que não encontra o devido respaldo nos rádios e nas tvs comerciais. O tema adotado nessa que já é a 12ª versão do projeto é o Violão brasileiro. Nesse sentido, reuniu-se oito violonistas do norte e do sul do Brasil para percorrer mais de oitenta cidades interpretando composições daqueles que contribuíram para que o violão se tornasse o instrumento que mais reconhecimento internacional traz para nossos músicos. Reconhecimento que ainda precisa alcançar grande parcela da população brasileira - ponto que o projeto do SESC ataca com louvável presteza.


Confesso que há muito eu não ouvia dois músicos de tal nível técnico. João Pedro Borges, maranhense de São Luís, é mais conhecido pelo seu trabalho à frente da Camerata Carioca e por seus trabalhos ao lado do grande Turíbio Santos. Na estrada há aproximadamente quarenta anos, João Pedro adquiriu um nível incomum de coesão entre técnica e paixão ao interpretar suas peças. Daniel Wolff, do Rio Grande do Sul, foi o primeiro brasileiro brasileiro a conseguir o título de Doutor em violão no Brasil (Manhattan School of Music). Intérprete e compositor, Daniel também mostrou grandes habilidade e sensibilidade ao tocar seu violão. Destaco a sua composição Scordatura, uma suíte em quatro movimentos na qual ele "brinca" com as afinações das cordas.


O leque de compositores do nordeste e do sul do Brasil selecionados pelos violonistas (Marlos Nobre, José Siqueira, Edino Krieger, Jaime Zenamon, Radamés Gnattali, Bruno Kiefer e vários outros) permitiu à platéia perceber as diversas linguagens adotadas, as diversas dicções que povoam o nosso violão.


A abertura do concerto foi com uma peça de Kiefer, Sons perdidos, escrita para dois violões, em que Borges e Wolff trocaram frases curtas e nitidamente contemporâneas (lembrando boas sessões de jazz). A partir daí a cena ficou ao encargo de Borges, que, além de Marlos Nobre, apresentou-nos o paraibano José Siqueira, autor da excelente Cinco invenções para violão. Wolff, por sua vez, apresentou-nos autores contemporâneos cujas peças também jogavam de modo genial com aspectos rítmicos, melódicos e harmônicos. O público pode apreciar o lirismo de Sonhando alegria, de Zenamon, que, interpretado por Wolff, soou como se fosse a coisa mais simples do mundo (não estivese ele apoiado em intricada harmonia); muito interesante também o Poemeto, de Fernando Mattos, e Ritmata, de Krieger.


De acordo com Lídia e Beatriz, essa é ainda uma pequena amostra do que virá por aí. O melhor virá quando, no segundo semestre, concluirem-se as reformas do Teatro Glória, que passará a ser o palco dos diversos projetos (teatro, cinema, literatura e música) que serão implementados em Vitória. Aguardamos e torcemos para que tudo siga o cronograma estabelecido.

7 comentários:

Érico Cordeiro disse...

Mr. Salsa,
Turíbio Santos e João Pedro Borges, o Sinhô, são dois violonistas de exponencial talento. Motivo de orgulho para todos os maranhenses e representantes dos mais dignos das nossas tradições culturais (hoje, infelizmente meio em baixa, como ocorre em quase todo esse Brasil Varonil).
Tive a oportunidade de vê-los algumas vezes (infelizmente nunca juntos) e os dois primam por uma técnica invejável.
Que bom que haja projetos capazes de abrigar talentos dessa estirpe (como parece ser o caso Daniel Wolff) e levá-los a um público que, muitas vezes, tem pouco ou nenhum acesso a eventos de tamanha qualidade.
Abração!

Salsa disse...

É verdade, Érico,
infelizmente o quadro não é dos melhores, mas projetos como esse do Sesc abrem algumas portas.
Quando eu ouvi o João Pedro pensei imediatamente no colega maranhense. Ele disse que o povo daí é muito musical e que só freq6uenta bares que tenham música. É verdade?

figbatera disse...

Importante e elogiável projeto!

Miguel Ângelo disse...

Caro Mr.Salsa,

Esta é uma das minhas paixões: a guitarra clássica.
Temos grandes guitarristas nesta área: Segóvia, John Williams, Yepes... mas, há sempre um que nos toca... Julian Bream.
E não foi só na guitarra que este Senhor de destacou. Oiçam este vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=t4f8fej9Sqo

Um grande abraço

Salsa disse...

Plateía de peso, hein, Miguel? Ter Stravinsky como ouvinte deve ser complicado. O instrumento que ele toca é um alaúde?

Miguel Ângelo disse...

Mr. Salsa,

É um alaúde, mas tudo que tem cordas, Juliam Bream tocaria bem.
Ele é mesmo fantástico. E na guitarra clássica, gosto imenso de o ouvir tocar Villa Lobos ( este sim, O COMPOSITOR ).

Celijon Ramos disse...

É verdade Salsa, respondendo a pergunta que fizeste ao Érico. Há uma grande disposição no maranhense para a música, sendo que o público sempre prefere bares com shows de músicos. Não querendo puxar brasa para minha sardinha, escrevi um artigo no meu blog sobre um bar mítico aqui de São Luís, o Bar do Léo, que ameaçam fechá-lo. Se desejar, poderá acompanhá-lo. João Pedro Borges - o Sinhô, é um dos maiores violonistas de nosso país. Temos a felicidade de acompanhá-lo nas apresentações do Clube do Choro do Maranhão. E, às vezes, de bem pertinho mesmo. Outro dia meu amigo Ricarte, que dirige o clube do choro, convidou-me para um sarau em sua casa. Para minha felicidade, ao chegar, a fera a tocar naquela noite era João Pedro Borges, acompanhado do também maravilhoso Luiz Júnior que espero que um dia o conheça. Ficamos até de madrugada com o dedilhar do mestre, ainda bem que não faltou companhia e um bom vinho. Tudo foi perfeito.
Um grande abraço!