quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Chet - 13 de maio de 1988 (versão 1)

"Diabos, isso está ficando difícil", disse, entre dentes e arquejante, o corpo esquálido pendurado na parede externa do prédio, do pequeno hotel de Amsterdã. As muitas rugas do rosto desértico e encovado estavam inundadas por caudaloso suor que mostrava a necessidade de um pouco mais de esforço para alcançar a janela do seu quarto, ainda alguns metros acima. Distância medida pelos olhos iluminados por fúria latejante, que o impulsionava alguns centímetros a mais. O esforço esfolava e transformava em garras as suas mãos. "Ninguém roubará meu trompete, não, ninguém", disse as arranhadas cordas vocais em sua garganta. O que restava dos músculos corroídos pela heroína e álcool contraíam-se, enquanto as unhas feriam-se nos tijolos, que teimavam em escapar-lhes. De repente, a janela pareceu mais distante aos seus olhos, agora límpidos. Riu para si quando viu sua mão ferida: o sangue nas pontas dos dedos já teve conotação mais sublime, quando, de posse do seu trompete, ele harpejava seus temas favoritos. "Sim, minha alma voava e levava outras com ela. Alguém me disse isso, que meu sopro dava asa às almas desse mundinho cão. Não sei sobre elas, mas eu, sim, flutuo com meu trompete. Sim, senhor, eu sei como voar".

8 comentários:

Gabriela Galvão disse...

Bonzão este txt, Salsa. Ótima ilustração, tb.

Eu sei navoar; um dia t falo disso.

Am... Ontem fui ao Cochicho t ve tocar; confundi td.

Então, tah.

Abração!

Salsa disse...

Valeu a visita, pequena. Tem mais contículos lá pra baixo, no blog.
Até o Grijó escreveu um.
A gente se vê por aí.

John Lester disse...

Uma boa versão para a morte do mestre mais louco do jazz. As outras dizem que ele foi jogado pela janela por traficantes, ou caiu tentando sair do quarto quando perdeu a chave. Quanto às rugas, dizem que são de família. Boa biografia é A longa noite de Chet Baker, o maior trompetista do cool jazz.

F. Grijó disse...

Meu velho Salsa, é isso.
Os bons papos rendem sempre algo de bom.
Mas essa versão é muito louca mesmo.

Anônimo disse...

Vinyl e CD o 1º que chegar: apaga essa msg acima da minha é virus! Quase me ferrou!

Anônimo disse...

Peço licença ao Vinhas,Dias e Salsa é ate mesmo pela pertinência do assunto queria deixar o registro da morte do trompetista Araken Peixoto na terça-feira , dia 19.Não tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente, somente seu irmão, Moacyr ,de quem aproximei-me em seus últimos cinco anos de vida.Araken havia se mudado em meados dos anos 90 para o Rio de Janeiro.Era considerado, em vida, um dos patriarcas do “piston”, como classificava o instrumento, em seus discos da série “dentro da noite”, pelo selo Eldorado.Mantinha admiração e influência por Harry James, provavelmente o maior trompetista branco do jazz e Roy Eldridge, maior ídolo de Dizzy Gillespie.Foi um músico que conheceu a época em que as famílias ainda se reuniam pra ouvir música.E, portanto, sabiam como valorizá-la.Descanse em paz.Edú

Mª Augusta disse...

Legal a visão do Salsa, uma versão
interessante (e muito doida) para a morte do louco admirável Chet Baker!

Anônimo disse...

Parabéns pelo lindo texto .
Fez com que a morte trite do louco Chet Baker se transformar em poesia...