segunda-feira, 3 de março de 2008

Jamal

Eu não sei se nesses nossos dias de renovada caça às bruxas alguém neófito no campo do jazz olharia com tranqüilidade para um músico com nome muçulmano. Talvez sim: a proibição fomenta a curiosidade. O fato é que, já há algumas décadas, muitos negros norte-americanos optaram por retomar algo que os ligassem de modo mais radical às suas origens. Atitude que nos obrigaria a mergulhar mais no universo cultural ianque para melhor apreensão. Como não pretendo escrever um tratado sociológico, e por desconhecimento do assunto, evitarei digressões sobre o tema. Ater-me-ei a um breve papo sobre Frederick Russell Jones, nascido em Pittsburgh, em 2 de julho de 1930, que adotou o nome Ahmad Jamal.
Pois bem, Ahmad, ainda moleque (19), já tocava em orquestras. Daí em diante consolidou-se como um dos grandes inovadores entre os pianistas de jazz. Digo isso sem titubeios. Observem com atenção o que acontece no disco Ahmad`s Blues, gravação de 1958, feita em apenas uma noite, em Washington, e vocês entenderão o que eu digo. O espaço cedido ao baixo, já não mais limitado ao walking mas explorando patterns pouco convencionais para a época, é uma pequena amostra da concepção de seus arranjos. O silêncio é explorado ao máximo em suas construções harmônicas nos permitindo divisar o vasto campo onde paulatinamente as frases serão depositadas (quando a gente ouve pela primeira vez, a espera por profusões de notas, a la Peterson, gera uma certa ansiedade). Frases com estruturas arrojadas, curtas e límpidas anunciam um limiar sonoro que muito me impressionou. Não à-toa seu modo de tocar incidiu diretamente sobre nomes como Miles e Coltrane, que beberam fartamente nessa fonte.

9 comentários:

Salsa disse...

Ahmad não é um dos músicos que mais aprecio (eu não sou de ficar ouvindo pianistas), mas, devo reconhecer, o seu trabalho é mais do que consistente. As suas observações sobre os arranjos foram bastante pertinentes. Em autumn leaves, uma das faixas, o baixo toca uma linha pouco comum.

cd disse...

Eu estou tentando fazer o upload para o tocadisco da Badongo, mas não está rolando. Assim que possível, deixarei um sonzinho.

Edinho disse...

desculpe a ignorancia : como faço pra baixar as músicas do tocadisco da Badongo ?

cd disse...

Ih, Edinho, o pior é que eu também não sei. Vai clicando em cima da radiola... Quem sabe rola?

Anônimo disse...

Ao lado de Keith Jarret(um degrau acima de todos),é o mais brilhante e interessante pianista em atividade.Sua performance em “I Love Music” ,no disco The Awakening, é das mais antológicas e originais do jazz.Simplesmente, um flerte com a genialidade.Edú

Sergio disse...

Do Lester já li que ele não gosta muito de bateria, não gosta muito de orgão, não gosta muito de vibrafone, do Salsa, agora, que não liga pro piano... Vai um silencinho aí?...

Anônimo disse...

Eu desisto !

RCoimbra.

Anônimo disse...

só consegui a primeira a outra Let`s fall in love não baixa de maneira nenhuma

Salsa disse...

Sérgio, a música é pra isso mesmo: ressaltar o silêncio. Na verdade, eu tenho uma invejinha dos pianistas. O diabo do instrumento faz tudo.
Anônimo (Rogério?), a tecnologia é um inferno. Depois eu tentarei regularizar a coisa.