segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Fats plays

Conseguimos com o Salsa uma cópia do disco que contém a famigerada sessão com Fats, Bird e Bud. Em The street beat, Fats faz um longo solo que desafia os conceitos médicos. Os céticos continuam achando que o tema foi gravado em outra época.

domingo, 23 de dezembro de 2007

Fats' last session

Vinyl, meu velho, eu também tenho um conhecido que tem o hábito de escrever. Trata-se de Gésus Nonato, brasiliense, mas nascido em algum recanto à margem do São Francisco (e marginalizado se mantém). É daquele tipo de escritor para quem escrever é a própria vida. Vive d'isso. Solteiro, 51 anos, mas com corpinho de 62, pode ser encontrado vendendo um ou outro poema no entorno brasiliense. O pouco que ganha, ele investe no rango e em discos. Escreveu um continho sobre a última sessão de Fats Navarro no Birdland (para a maioria dos entendidos essa sessão não existiu). Infelizmente eu não tenho o disco Bird & Fats Live at Birdland (é uma daquelas gravações feitas da platéia por fãs - a qualidade é sofrível), para usar a faixa The street beat como trilha sonora. Deixarei, então, a faixa The heaven's doors are wide open, do cd Complete Blue Note Sessions (Fats e Tadd).
A última jam
A primavera de 1950 se despedia e o verão se anunciava na brisa, que insistia através da janela semi-aberta trazendo sons de carros e buzinas – a batida das ruas. O trompete descansava no pequeno sofá do quarto de hotel. No banheiro, apoiado na pia, cabeça baixa, Fats fitava a água descer pelo ralo levando fios escuros do sangue que expelira com a tosse tuberculina. Os olhos baços liam naqueles traços o seu próximo destino. Arre! A saudade seria apenas da sua amada música. Ela lhe dera tudo, era tudo que tinha. O que mais poderia fazer, nessa terra, um filho da mistura de tudo que ela detestava – latino, negro e chinês? Ela foi a passagem sem volta da infernal Miami para a iluminada New York. Mais tosses. O fôlego escapa em pequenas gotas de sangue. O ar dói no peito ferido. Ah, minha musa, música linda, o que há de ser? Só mais uma sessão. Só. Ao lado do trompete, a seringa, já preparada (o que restou da última dose de heroína), se oferece às cansadas veias. Minha musa, só mais uma vez. O corpo, já a metade do que foi, se levanta. O palco do Birdland... No palco, Bud e Bird me aguardam. E a musa, minha música, comigo, como se fosse a última vez, só mais uma vez.

sábado, 22 de dezembro de 2007

Feliz Natal!!!

Eis um bom pretexto para comemorar, beber umas & outras e, óbvio, ouvir jazz.














PS - Lá no jazzman tem um monte de discos com temas natalinos (interpretados por jazzistas) para animar a seia, digo, ceia.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Monk no céu

Assim, a queima-roupa, sem mais delongas, antes do esperado, eis que pinta mais um contículo, que, como o do Salsa, contraria algumas leis físicas: Como coube tanto em tão poucas linhas? A nota certa, digo, a palavra certa no lugar certo? Arte de grandes músicos, arte de grandes escritores. Desta vez, a mão que embala o texto é do literato e editor-chefe do blog ipsis litteris, Grijó (jazzófilo de primeira, escritor não menos). Sentimo-nos honrado com sua presença em letras. Não deixem de ouvir a trilha sonora: Ask me now (uma versão com Monk e outra com David Murray, que, de acordo com Salsa, é um saxofonista apreciado pelo nosso escritor).

"Monk no Céu"

Nem sei por que estamos todos aqui, nesse estranho labirinto em que música parece não existir, de fato, a não ser que esse silêncio, como diziam alguns, há tanto e há muito, possa ser chamado de música. Não é, claro. As sensações, aqui, misturam-se, essa é a verdade: degusta-se o que deveria ser visto; vê-se o que anteriormente era prazer tátil; ouve-se o que é edível e as trocas se perpetuam e parecem não confundir quem por aqui vive. Alguém me disse – ouvi tais palavras com as mãos – que sempre foi assim, e assim será mantido. Não, digo com minha própria voz, e aproximei-me do piano que jazzia triste, e que, como qualquer outro, tinha teclas para serem tocadas com os dedos, e dedos para tocarem almas. Não houve resistência. Sentei-me, vislumbrei o teclado como se fosse ele as vértebras de um animal antigo, esquecido. Pisei os pedais delicadamente – mal sabem eles o que eu podia (e ainda posso) fazer com os pés. E com as mãos? Ask me Now, penso, enquanto todos dizem sim. E assim fui, e assim fomos, pelo resto dos tempos, até que todos cheguem.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Newborn

Prezado CD,
Passei no nosso vizinho mpbjazz e li um texto do Salsa sobre o pianista Romano Mussolini, no qual constava um convite ao professor Grijó para escrever um conto tendo o camarada como personagem. Achei a idéia boa e fiz a mesma proposta ao Salsa. Não é que ele topou? Com algumas ressalvas, mas topou. Em primeiro lugar, disse-me ele, o óbvio: serão viagens sobre os temas - ficções pautadas em detalhes da vida dos personagens músicos. Segundo, não terá compromisso com periodicidade - quando rolar, rolou. Terceiro, os textos serão breves.

No dia seguinte ao convite, para minha surpresa, ele me enviou o seguinte contículo:

"Eu beberia uma ou duas doses se a minha mão abrisse. Mas meus dedos recusam seguir minhas ordens. Temem e tremem. Parecem obedecer algum outro comando. Alguma voz que eu não ouço, mas que atinge meus nervos, torcendo-os à dor. Eu beberia toda aquela garrafa (...) Nunca ficou claro se aquele piano riu para mim ou de mim. Por que me feriu? Eu vi seu sorriso se transformar em máscara ferina... Foi ele que mordeu meus dedos... Foi ele? Sim, foi ele... Eu vi seus dentes. Vi, sim. Pontiagudos. Irregulares. Cobertos de lodo. Senti seu hálito infernal e a dor em minha mão. Seus dentes. Suas teclas se abriram e eu caí. Foi escura a queda. E a canção, em mim, revolta, açoitando minha alma. Lembro-me: amarrado à cama num cubículo na ala B do Camarillo State Mental Hospital, corpo sedado, sonhei renascer... Newborn. Newborn, Phineas Newborn, digo para o sujeito ao meu lado, que a pouca luz do bar não me permitiu os traços. Mr. Shadow, pensei. Tenho seus discos, alguns. Te ouvi com Mingus. Com Haynes também. Gosto daquele que você foi acompanhado por Paul Chambers e Sam Jones no baixo, e Louis Hayes e Philly Joe Jones na bateria. Um mundo de piano! É um disco completo. Cheryl, a primeira faixa, é fenomenal. Lush life e Daahoud não ficam atrás... Minhas mãos voltam a doer. Uma canção não tocada... pode ser, pode ser"

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Idle moments - Green & Co

Meu caro amigo Dias, vulgo CD,
Sei que você tem um histórico amoroso com guitarras. Afinal, quando eu o conheci, na rodoviária de Brasília, você estava tocando violão. Trago, então, o disco Idle moments, de Grant Green (que, creio, já deve fazer parte do seu acervo). Para mim, esse é um dos melhores discos gravados por Green, se não o melhor. Foi gravado em 1963, com a elegante companhia de Joe Henderson (sax tenor), Duke Pearson (piano), Al Harewood (bateria), Bob Cranshaw (baixo) e Bobby Hutcherson (vibrafone).
O clima alterna momentos completamente relax (Idle moments e Django) com momentos do mais puro hard bop (Jean de Fleur e Nomad). A guitarra de Green, sempre pontual, aveludada, deixa as notas certas no momento certo. O piano de Pearson está exemplar. Todos estão em perfeita sintonia (até o sax de Henderson, costumeiramente ríspido, está com textura macia na faixa-título). Deixarei as faixas Idle moments e Nomad.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Mulligan e Hamilton

Em primeiro lugar, peço desculpas pela longa ausência. Como já lhe disse, caro Vinyl, o fim de ano está pesado. O bom é que, em uma das inúmeras viagens, achei um disco cuja classificação não pode ser menor do que "elegante". Achei numa lojinha de usados, em Goiânia, no meio de um monte de discos breganejos, o cd Gerry Mulligan Meets Scott Hamilton - Soft Lights & Sweet Music. Vinhas, meu chapa, não pude deixar de postar mais esse disco com a presença do tenorista Hamilton. A união do maior barítono de todos os tempos (é só minha opinião de amador) com esse tenorista que traz na alma a alma do suingue e do cool não poderia resultar em outra coisa: eu descansei quando ouvi. O encontro faz jus aos anteriores, realizados a partir dos anos 50 e protagonizados por Mulligan e seus comparsas do jazz Desmond, Webster, Hodges e Getz. O disco foi gravado em 86 e relançado em 2006, com a cozinha equipada com os instrumentistas Jay Leonhart (Bass), Mike Renzi (Piano) e Grady Tate (Drums). Deleite-se com a faixa-título e com Ghosts (um tipo de fantasma que eu gostaria que me assombrasse pro resto da vida).

domingo, 2 de dezembro de 2007

Jimmy Heath is hot

Logo no início de sua carreira, Jimmy Heath era comparado com Parker. Pois é, ele também tocava sax alto, só depois ele passou a tocar tenor. Fruto da comparação? Vá lá saber... De qualquer modo, ganhamos um bom tenorista. Durante os anos cinqüenta ele desapareceu da cena jazzística. Segundo o Allmusic, devido a problemas particulares. O que importa é que em 59 ele voltou com todo o gás e lançou seu primeiro disco como band leader: The thumper. Ao seu lado estavam Nat Adderley, Curtis Fuller, Wynton Kelly, Paul Chambers e seu irmão Albert "Tootie" Heath (ele tem outro irmão é Percy). Família musical, essa. Enquanto eu ouvia esse disco, lembrei-me de outro, mais recente (um dos últimos): You've changed, gravado em quarteto (em 1994). Além dele, o grupo é formado pelo bom guitarrista Tony Perrone, Ben Browm e Tootie Heath. É sempre curioso observar se o tempo afeta a performance dos músicos. Assim sendo, deixarei faixas dos dois discos para a apreciação dos visitantes: Who needs it? e Don't You know I care (do LP The thumper) e You've changed e Basic Birks.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Curtis Amy & Dupree Bolton - Katanga!

Lá no começo do blog apresentamos um disco do Harold Land, do qual participava o trompetista Dupree Bolton. Pois bem, encontrei outro disco - Katanga! - em que ele divide a cena (em seis das nove faixas) com o saxofonista (tenor e soprano) Curtis Amy. Aliás, o disco original só continha seis faixas, no cd é que incluiram mais três faixas de outro disco (Way down) com músicos diferentes (confiram na contracapa), o qual eu não possuo. Não se assuste com a capa, não se trata de nenhuma experimentação em busca das origens percussivas africanas. Esse cd está recheado com jazz de primeira qualidade. Prestem atenção no sopro selvagem de Curtis Amy, especialmente quando toca tenor. O soprano soa como uma bem dosada mescla de lirismo e algumas ousadias à Coltrane. Dupree, por sua vez, segue aquela linha expressiva e brilhante que a gente encontra (como bem afirma o encarregado das notas, Mr. John W. Hardy) em Dizzy, Clifford Brown e Navarro. É um sopro que compõe muito bem com a pegada de Amy. Se a coisa parasse por aí já estaria bom, mas ainda tem mais: o guitarrista Ray Crawford me soou simpaticíssimo, com suas frases precisas (com aquela firmeza de quem já encontrou aquelas notas que muitos virtuosos tentam capturar com enxurradas de frios arpejos). O resto da banda é composto pelo pianista Jack Wilson (dono de um gentil manuseio das teclas), pelo baixista Victor Gaskin e pelo baterista Doug Sides. Eu não vacilo em dar cinco estrelas para esse belo trabalho, gravado durante a primeira semana de março de 1963. De brinde ficam as faixas Lonely woman e A shade of Brown.

domingo, 25 de novembro de 2007

Shank e Levy

Lou Levy (falecido em 2001) é um pianista pouco conhecido, mas competente como poucos. Levy tem uma discografia pequena como líder, se comparada com outros nomes do jazz, mas tem belos trabalhos como sideman (um visitante disse gostar de seu trabalho com Ella). Eu tenho um cd dele com Bud Shank em homenagem ao bom e velho "olhos azuis". Pois é, os dois interpretam temas que um dia se fizeram ouvir (e ainda são ouvidos, obviamente) na voz de Frank Sinatra. O pianista não é nada convencido - é patente a sua preocupação em ajustar a harmonia para o fraseado de Shank. Unem-se, aqui, o lirismo e força - Levy e Shank. Ouçam Night and day e Yesterdays.