No próximo dia 17, às 20:00h, estarei no Ponto de Encontro (anexo etílico-cultural da ADUFES) para uma noitada de jazz com meus amigos Caco Dineli (baixo acústico), Bruno Venturin (teclados) e João Augusto (bateria).
Penso numa das verdades do seu Acácio: quando a sorte lhe sorrir, abrace-a. Não uma sorte qualquer, mas aquela que, quando sorri, ecoa no seu corpo como um leve terremoto. Abrace-a, mesmo que o chão abra aos seus pés. A queda valerá a pena.
Com essa idéia na cabeça, abro uma garrafa de syrah (uva que regou um desses momentos de vôo livre) e coloco na vitrola um disco que muito aprecio, gravado no bom ano de 1959: Herb Ellis meets Jimmy Giuffre. Dupla que dispensa apresentações. Cenário completo.
A encantadora simplicidade com que a música flui desse velho lp é apropriadíssima para embalar as boas (e levemente melancólicas) lembranças que me envolvem. Vocês entenderão o que estou falando quando, por exemplo, ouvirem Patrícia, o solo defendido por Ellis. Citar uma faixa do lp, no entanto, é injustiça com todas as outras sete, também deliciosas, que compõem essa preciosidade.
A tribo westcoast é aqui representada por Art Pepper, Bud Shank, Richie Kamuka, Jim Hall, Lou Levy, Joe Mondragon, Stan Levey. Querem mais? Ouçam ali na radiola.
Camarada, a dor dói mais quando está sarando. Lógica infernal. O tecido novo, cicatrizante, está mais sensível. Trocar o curativo, hoje, foi uma experiência vertiginosa. Lembrei-me de um poema que escrevi por outras dores há alguns anos. Parece que mandou uma irmãzinha para se vingar:
Sim,
não tive pena da Dor
e a sufoquei sem piedade.
Deixei-a gemer e espernear
– criança sem palavras –
e ela uivou pra lua
como uma loba no cio.
Sem dó arranquei suas unhas e presas
e a deixei sangrando, indefesa,
à mercê de outras, famintas,
da sua espécie.
Sim,
e quando a fúria, impotente,
brotou em seus olhos
eu os furei com ferro quente.
Ó Dor, cega e muda,
por mim esquartejada
e abandonada aos cães:
não sei do seu sepulcro,
não li sua lápide
e não te ofereço nenhuma prece.
Agora, chuva chovendo na minha janela, busco algum bálsamo para a dolorosa mordida do destino. Arrisco-me com um maluco que tinha entre seus ídolos Stravinsky e Bartok. O nome do camarada é Pete Rugolo, compositor e arranjador californiano, maluco e querido por todos os jazzistas da costa oeste.
Rugolo gravou alguns discos com formações pouco ortodoxas: dez trombones e dois pianos, dez trumpetes e duas guitarras, dez saxofones e dois baixos; gravou também um disco dedicado à percussão. O cd que estou escutando reúne os quatro discos citados: Exploring new sounds. Aqui você poderá ouvir quase todos os grandes músicos de jazz daquelas plagas. Viagens mil. Deixarei quatro faixas na radiola.
Minha Shadow 600 foi internada hoje. Escoriações diversas a deixarão longo tempo em repouso (peças importadas e coisa e tal), mas ela ficará melhor que antes - estou decidido quanto a isso. Eu, cá, retorno da troca dos curativos...
Recosto-me na velha poltrona e ligo a eletrola ídem. Quero ouvir um vinil há muito por mim esquecido: um disco da bela pianista Joanne Grauer. A menina de formação erudita não resistiu ao apelo do jazz e se lançou de corpo e alma nos seus braços. A relação foi boa e rendeu bons frutos. Um deles - ...Trio - nasceu em 1957, tendo com auxiliares Buddy Clark e Mel Lewis.
Observem como a bela balança quando passeia pelas teclas de seu piano interpretando Mood for mode, de sua autoria. Mãos firmes, ela sabe como usar força e suavidade para embalar esse coração arranhado. Ouçam também a passionalidade que cerca a sua versão solo de Invitation, intensidade a toda prova. Sim, Joanne é intensa como um bom cabernet. Experimentem um pouco ali na radiola.
Estou no estaleiro. Um caminhão derrubou-me na br 101 norte, quando ia para o trabalho. Mãos raladas, apenas (estava sem luvas). O capacete e a jaqueta nova seguraram a onda.
Um bom remédio para a incômoda dor que me guarda é ouvir um pouco de boa música. E isso, ainda bem,
eu tenho em boa quantidade nos hds e estantes do meu quarto.
Agora, duas da manhã, ouço Horace Parlan, pianista não muito cotado na bolsa mas que me agrada pelo balanço de suas
composições e interpretações. O disco em questão é Speakin' my piece, no qual se fez acompanhar pelos irmãos Stanley e Tommy Turrentine, mais George Tucker e Al Harewood.
Há algum tempo, dois ou três anos, estava na casa do Lester ouvindo uns discos que Acácio levara para servir de trilha sonora para mais um relato de suas aventuras musicais-etílico-amorosas. Não sei porque Lester, o biógrafo quase-autorizado do bon vivant, ainda não a reproduziu. Não, eu não o farei. Restringirei-me a falar um pouco sobre a trilha sonora.
Enquanto Acácio, com olhos brilhantes, falava-nos de uma passagem por um dancing club em NY, onde conhecera a bela Laura Carlton (mostrou-nos a foto), mais um de seus eternos amores, rolava uma orquestra na radiola. A época, início do sessenta, destaque-se, as orquestras estavam em plena decadência e os dancings seguiam o mesmo caminho. Havia, no entanto, algumas que resistiam. Uma delas era a capitaneada por Maynard Ferguson (falecido em 23 de agosto de 2006), um dos poucos trumpetistas que conseguem trafegar com elegância pelos agudos do seu instrumento - tarefa mais que difícil. E foi sob o manto sonoro estendido pela orquestra do trumpetista que Acácio presenciou a chegada epifânica da musa que, naquela noite, eternizou-se em sua vida. Bem, algum dia, espero, vocês terão mais detalhes sobre essa passagem acaciana. Voltemos aos discos.
Maynard ferguson and his Orchestra plays jazz for dancing e Let's face the music and dance, gravados em 59 e 60, foram realmente produzidos para se dançar. Os dois discos estão reunidos no cd Dancing sessions. Os arranjos balançados e os bons solistas tornam aprazível a experiência de ouvi-los e, confesso, quase fez com que eu seguisse o conselho de Acácio e procurasse uma escola de dança para aprender uns passinhos básicos.
Ouçam dois teminhas: Soft wind e Stompin' at savoy
No dia sete de maio estarei no Wunderbar Kaffe (Esquina da Av. Rio Branco com a R. Chapot Presvot, Praia do Canto, Vitória) tocando um monte de standards com meus amigos Kako Dinellis (baixo acústico), Bruno Venturin (teclados) e João Augusto (bateria).
O lance começará às 20:00h e terminará às 23:00h.
Na mesma noite farei uma exposição relâmpago de alguns desenhos que arrisquei fazer -Musas e Música.
Acompanhar a Paulinha é muito complicado. Ela gosta de passeios, caminhadas, escaladas e coisa e tal. Para minha sorte, da última (e distante) vez ela só quis pedalar pela orla. Vinte quilômetros depois, tentando disfarçar com altivez a língua que insistia em despencar pelo meu queixo, chegamos em sua casa. Queria apresentar-me sua nova receita de salada, um espumante levíssimo como o cristal e um disco que, disse-me ela, combinaria com o dominical fim de tarde.
Bem, a companhia da Paula torna tudo muito agradável. O disco está, pois, contaminado por reminiscências do nosso encontro. O meu juízo crítico, no caso, não é nem juízo, nem crítico. Por isso deixo ao vosso encargo avaliar o exemplar da terceira via do jazz.
O disco em questão era Bud Shank plays..., no qual interpreta Concerto for jazz alto saxophone and orchestra, de Manny Albam. Ah, sim, a cozinha fica por conta da Royal Philarmonic Orchestra. Além da peça de Albam, ouve-se também os standards Here's that rainy day e Body and soul.
Partilho, pois, com vocês, a erudita viagem de Albam.
Longo tempo sem cuidar do meu quintal. Dias árduos passados - centenas de provas! - retorno ao meu terreiro para depositar mais uma oferenda aos meus amigos viajantes.
Ouço um trio que jamais se repetiu em gravação outra. Ao piano fulgura Hasaan Ibn Ali, de quem não tenho maiores notícias (meus amigos Lester e Érico poderiam auxiliar-me nesse momento). A contracapa do lp informa que Hasaan tocou com deus e com o mundo (menos com Parker), mas parou nesse único trabalho, gravado em 1966. O que é uma pena, pois o seu som é daquele tipo que sempre se manterá na vanguarda, devido à profusão de variações rítmicas e harmônicas, e pelo fraseado muito louco que ele extrai das teclas do piano. Os amigos, com certeza, sentirão no ar a presença de Monk, fato que em nada desmerece o trabalho do camarada. Mas, diz-nos Hasaan, sua maior influência seria Elmo Hope, a quem dedicou uma intensa balada - Hope so Elmo.
Antes que me esqueça, o trio é liderado por Max Roach - que só pelo fato de ter gravado esse disco já merece nossas congratulações. Uma presença também impressionante é o excelente baixista Art Davis, que também mostra uma força expressiva pouco comum.