Um pouquinho de boa música para melhorar o chuvoso tempo. Trago-vos um disco que já seria bom se considerássemos apenas os dois sopros que participaram das gravações: Phil Woods e Donald Byrd. Mas tem mais: o pianista e band leader George Wallington, para completar o seu quinteto, conta com Arthur Taylor (d) e Teddy Kotick (b) para cuidarem da sessão rítmica.
O disco - Jazz for the carriage trade - gravado em 1956, é um daqueles trabalhos em que procurar defeitos é uma tarefa difícil. Dominado pelo límpido swing imposto pela pegada primorosa de Wallington, o grupo passeia por temas como Our Delight, Our love is here to stay, Foster dulles, Together we wail, what's new e But George. Esta última, uma composição de Woods, permito-me dizer, foi a que mais me cativou. Os diálogos entabulados por Woods e Byrd, criam o clima mais envolvente do jazz - clima de uma jam.
É uma capela vazia, onde somente o vento fez seu ninho.
Não há janelas, e as portas rangem e gingam,
Ossos secos a ninguém mais intimidam.
Um galo apenas na cumeeira pousado
Cocorocó cocorocó
No lampejo de um relâmpago. E uma rajada úmida
Vem depois trazendo a chuva
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In this decayed hole among the mountains In the faint moonlight, the grass is singing Over the tumbled graves, about the chapel There is the empty chapel, only the wind's home. It has no windows, and the door swings, Dry bones can harm no one. Only a cock stood on the rooftree Co co rico co co rico In a flash of lightning. Then a damp gust Bringing rain
Entre os trompetistas que eu aprecio, Kenny Dorham ocupa um lugar especial. Seu sopro traz características que muito me agradam: claro e direto, sem muitos adornos, com densidade e textura variáveis de acordo com o que solicita o tema interpretado.
Ouço agora o disco Inta somethin' (1961), que conta com a participação de uma figura de espírito indomável: Jackie McLean. Este traz como marca o som rascante, sem tremolos, direto, com forte pegada.
O autor do muito bem escrito encarte (John William Hardy), assinala que, nesse disco, a terminologia apropriada para definir a dupla seria "tradicional moderno". O termo traz não só o viés do mainstream jazzístico, mas a primitiva passionalidade que fulgura no sopro de ambos. À passionalidade acrescenta-se o modo como os dois usam seus instrumentos: "algo experimental sem serem experimentalistas".
A sessão rítmica fica por conta dos excelentes Walter Bishop Jr., Leroy Vinnegar e Art Taylor. O resultado final é um som que pode soar agressivo aos ouvidos conservadores (especialmente nas baladas), mas é merecedor de aplausos. Gostei e indico.
Alguns músicos, apesar de serem grandes, parecem estar fadados a viverem à sombra dos seus contemporâneos. Não diria que Sam Jones seja um desses obscuros heróis, mas, com certeza, ele merece mais atenção dos apreciadores do jazz.
Trago-lhes, hoje, o segundo disco desse grande baixista (The chant), gravado em janeiro de 1961 (completa 50 aninhos dia 13). Um disco marcado pela tradição, com forte dicção do blues e do swing. Aliás, Jones não é um cara chegado em grandes experimentos musicais. Parece-me que sua praia é mesmo a boa velha escola.
The chant é uma produção que bem mostra a aceitação de Jones pelos colegas. Ao seu lado está um grupo (uma big band, melhor dizendo) que reúne uma leva de renomadas feras do jazz. Conte aí: Nat e Cannonball Adderley, Blue Mitchel, Wynton Kelly, Les Spann, Victor Feldman, Jimmy Heath, Louis Hayes, Tate Houston e Melba Liston. Feras que não negam fogo quando chamados a mostrarem suas habilidades.
O resultado me agradou bastante e indico sem titubeios.
Ainda no clima natalino, eis mais um bom presente: a gravação realizada em 1957, intituladaInterplay for 2 Trumpets & 2 Tenors. Reunem-se para a labuta John Coltrane (tenor saxophone), Bobby Jaspar (tenor saxophone), Idrees Sulieman (trumpet), Webster Young (trumpet), Kenny Burrell (guitar), Mal Waldron e Red Garland (piano), Paul Chambers (bass) e Art Taylor (drums).
Não sei se deveria aparecer alguém como líder, pois o trabalho está mais para uma bela jam com grandes músicos mostrando, sem pudor, suas peculiaridades como instrumentistas. Essas gravações são um prato cheio para os apreciadores do jazz atentarem para os estilos dos músicos envolvidos. Ouvir o sopro mais vivaz de Coltrane em contraste com o som mais introspectivo do belga Jaspar, assim como o brilho gillespiano de Sulieman ao lado do milesiano Young é uma aula e tanto. E ainda há a excelente sessão rítmica, que acrescenta mais boas doses de boas interpretações, motivo para maior deleite.
Ouçamos a faixa título. A ordem dos solos: Sulieman, Coltrane, Young e Jaspar (depois entram Burrell, Waldron e Chambers).
A primeira vez que ouvi o guitarrista Ry Cooder foi nos anos setenta, em um lp chamado Jamming with Edward, no qual tem uma versão do belo blues It hurts me too. Fiquei impressionado com a sonoridade metálica do slide que explora nas cordas de seu violão ou guitarra. Um som que, no universo jazzístico, pode ser aproximado do som de Frisell.
Cooder tem-se mostrado mais que um simples músico. Seu trabalho nos revela um profissional apaixonado profundamente pela música. Ele tem buscado, em incessantes pesquisas, conhecer as diversas linguagens musicais populares e, mais, mostrar as influências que se amalgamam e originam as diversas vertentes da música pop.
Meio por acaso, encontrei na rede um disco chamado Jazz, no qual Ry Cooder faz um apanhado das várias expressões que confluem no mainstream jazzístico. O tratamento dado por Cooder tenta manter o clima das primeiras gravações, das versões cantadas nos féretros em New Orleans, tudo muito bem arranjado. Não esperem encontrar jams com improvisos longos. O trabalho é mais um apanhado sobre a história do jazz. Processo - a história - que, como disse acima, parece interessar bastante ao guitarrista. É um trabalho curioso que merece ser ouvido e poderia ser um presente interessante para os aficionados do gênero.
Véspera da véspera do natal. Aproveito a hora do almoço para presentear meus amigos navegantes com um ítem de colecionador. Trata-se dos dois primeiros discos gravados por Art Pepper como band leader, reunidos no cd de título The Discovery sessions. O atrativo fica por conta das sessões originais aqui reunidas que, dizem, não estão no similar já aqui postado - Surf ride.
Pepper, vocês sabem, iniciou sua carreira ainda bastante jovem (com dezesseis já tocava nas noites de LA); antes, aos nove, já fazia umas graças para os amigos beberrões do seu pai (ainda tocava clarinete - o sax alto só veio aos doze). Sua habilidade como saxofonista rapidamente chamou a atenção dos grandes que circulavam pelos bares californianos. Figurinhas como o baixista Mandragon e o tenorista Dexter Gordon arranjaram-lhe uma série de trabalhos que consolidaram o seu nome na praça.
O encarte do cd que reúne esses dois trabalhos destaca que jovem, no entanto, queria poder soltar suas asas (os arranjos dos grupos que participara eram rígidos e não permitiam maiores devaneios sonoros). Veio, então, a oportunidade de, em 1952, gravar um 10' de 78rpm para o selo Discovery. O quarteto é basicamente o mesmo que trabalhou Surf Club: Joe Mandragon (baixo), Hampton Hawes (piano) e Larry Bunker (bateria). As faixas gravadas foram Brown gold (baseado na harmonia de I got a rythm), a balada These foolish things, a conhecida Surf ride e Holliday flight (ambas com levada blues).
Em 1953, Pepper voltou à cena para gravar mais algumas faixas, desta feita ladeado por outros grandes músicos: Russ Freeman (piano), Bob Whitlock (baixo) e Bobby White (bateria). As faixas gravadas foram Chilli Pepper, Suzy the poodle, Everything happens to me e Tickle toe.
Após uma pausa de um ano (período em que foi preso por porte de drogas e teve que fazer uma desintoxicação básica), retornou ao estúdio para gravar, agora com um elemento mais - o tenorista Jack Montrose - que implicou em substancial alteração na sonoridade, mas sem perder a criatividade e a leveza. Completam o time Claude Williamson (piano), Mont Budwig (baixo) e, revezando na bateria, Paul Ballerina e Larry Bunker. Foram gravados 11 temas (no cd tem vários alternates takes), entre eles Straight life, que deu nome à sua auto biografia.
Gostaria de, um dia, tocar apenas temas de Cole Porter. Gosto bastante do modo como ele estruturava seus temas e, mais ainda, do modo como escrevia. Seus versos escapam, em muito, à maioria dos compositores.
Alguns dos grandes jazzistas dedicaram pelo menos um disco exclusivamente à obra de Porter. Um dos que se dedicaram a essa boa tarefa foi Dave Brubeck, no disco plays Porter (Anything goes!), gravado em 1965. A peculiar elegância do quarteto (Brubeck, Desmond, Morello e Wright) casa bem com o texto musical de Porter.
Retorno. Afastei-me mais do que pretendia, mas, encerrada a temporada de provas, cá estou, ileso. Traduzido o último hieróglifo, esparramo-me no sofá e pego o primeiro disco ao alcance da mão. Um guitarrista.
Ouço Windows, o primeiro disco (1973) que Jack Wilkins gravou como líder. Nascido no Brooklyn, em 44, Wilkins não foi levado pela onda rock'n'roll que invadiu os anos sessenta, quando desenvolvia sua técnica. Mas também não fechou seus ouvidos para o que estava acontecendo com o jazz do período. O resultado é que o guitarrista preserva um punch do melhor mainstream (mesclado aos novos ares) quando interpreta os temas contemporâneos (Corea, Hubbard, Coltrane, Hancock, entre outros) que recheiam o citado disco.
Wilkins está ladeado por Bill Goodwin (bateria) e Mike Moore (baixo acústico e elétrico).