sábado, 17 de outubro de 2009

Alice in wonderland

Lembro-me que, há pouco tempo, estava eu numa "perrenga" cavalar. De repente, como aquele solzinho matinal do início da primavera que entra pela frestra da janela, surgiu uma musa - walkin', justo balanço, justas pernas, corpo delineado pelo vestido preto, mostrando aos meus entediados olhos que a beleza ainda existe e resiste. Não pude concluir outra coisa a não ser "os deuses me amam". Mas, dizem por aí, os deuses são enigmáticos. Aos apelos de cuidado, eu bravamente me disse: "e eu lá sou homem de me amarrar em mastros para resistir às sereias... Morro afogado".


Sim, parece que existe uma conspiração universal para nos fazer crer que a vida é uma m****. Pode até ser verdade, mas podemos afundar abraçados em algo que valha a pena. Tenho pensado, como muitos velhos, que a melhor maneira de naufragar é nos braços de uma musa, e, se possível, com uma boa trilha sonora. E isso, os bons discos (já não é surpresa para mim) a cada dia que passa, tem surgido de montão. As musas, por sua vez, são epifanias raras - por isso aconselho: se alguma acenar para você, não faça como Ulisses, jogue-se no mar e afogue-se!



Bom, ainda existem muitos músicos envolvidos de corpo e alma na tarefa de não deixar a beleza morrer. Agora mesmo, nesse exato momento, ouço um pianista muito bom, admirador confesso de Bill Evans, que gravou seu primeiro disco em 1995. Trata-se de David Hazeltine. O disco que ouço foi gravado em 2003: Alice in wonderland. Os acompanhantes de Hazeltine são George Mraz (bass) e Billy Drummond (drums). O disco é uma homenagem direta ao seu ídolo. Oito dos nove temas foram gravados por Bill Evans. A nona canção é For Bill - dizer o quê? - composta por David.


Achei o disco muito agradável. Elegante como a musa em seu vestido negro. Merece ser ouvido e adquirido. Confiram ali no podcast do jazz contemporâneo.

Link: Avax

17 comentários:

O Pescador disse...

Excelente escolha Mr. Salsa.
Hazeltine é um dos pianistas actuais que nos têm trazido interpretações bem refrescantes do repertório tradicional do jazz. Além de Evans, conheço-lhe também tributos prestados a Bud Powell, Horace Silver e Burt Bacharach.
Os músicos que costumam acompanhá-lo em trio são sempre de primeiríssimo plano.
E o som dos CDs da Venus Records é um espanto.
Saudações do Pescador.

Érico Cordeiro disse...

Mr. Salsa,
Só conheço o Hazeltine de nome, mas não tenho nadinha, nadinha dele (só se for como sideman, mas tenho que procurar bastante).
Bom, a capa e bacanuda (e a faixa que tá rolando agora, idem).
Indicação do quintal do jazz, grande casa!!!!
Chancela do Mestre d'Além Mar - o querido Pescador!!!!
Só me resta rezar prá Santa Edwirges: "Tende piedade dos meus pobres cartõezinhos"!
Valeu a dica!!!

Salsa disse...

Prezados Érico e Fisher,
Eu descobri Hazeltine por acaso em meus passeios pela web. Gostei bastante da sonoridade do trio. Sei também que ele já acompanhou (ou acompanha) Eric Alexander. Sairei à cata de algo mais.

John Lester disse...

Prezado Mestre, eu tive melhor sorte: fui apresentado a Mr. Hazeltine no dia 29/01/2008, mediante resenha honesta de Mestre Edù, lá no Jazzseen.

Em que álbum? Blues Quarters Vol. 2, lançado pela Criss Cross em 2006. Veja o time: Eric Alexander no tenor, Peter Washington no baixo, Joe Farnsworth na bateria e Jose Alexis Diaz numa maravilhosa conga inaudível.

Grande abraço, JL.

pituco disse...

mr.salsa,

piramidal...sonzaço do trio,além da qualidade da gravina...

contrabaixo e batera bom pacas...uau...e,claro,o piano classudo.

abraçsonoros

Salsa disse...

Prezado Lester,
Como assíduo freqüentador do jazzseen, pode ter sido lá o meu primeiro contato com Hazeltine. O nome deve ter ficado em algum lugar da memória e, ao revê-lo, não titubeei em ouvi-lo.
Pituco,
Fisher destacou justamente a qualidade das gravações do selo Venus. Será ótimo se todos mantivessem esse nível de som.

Salsa disse...

Leia-se "seria ótimo..."

Sergio disse...

O "acerca de" sobre o álbum está ótimo. Salsa manda muito bem. Mas com uma capa dessas... Nem precisava texto.

Agora, porque os japa tem essa mania esteticamente equivocada de cobrir meia capa com esses hieróglifos deles?

Já não lembro mais por quem fui apresentado ao Hazeltine, mas com ele me defendi bem, descolei:

DAVID HAZELTINE (MODERN STANDARDS) 2005 -INCOMPLETO
DAVID HAZELTINE TRIO & QUARTET (A WORLD FOR HER)
DAVID HAZELTINE, JOE FARNSWORTH, PETER WASHINGTON (PERAMBULATION)

E este aqui baixarei djà!

figbatera disse...

QUE DELÍCIAS!! (a capa e o som)

figbatera disse...

Que pena, não consegui baixar "free"...

Salsa disse...

Não desista, Fig. Tente mais tarde.

jazzlover disse...

Nada a acrescentar ao que vc disse mestre Salsa,seria redundante.O balanço é otimo embora nunca tenha ouvido antes o Hazeltine... irei a fonte para conferir, espero encontrar a musa por la, ai seria demais !!!

PREDADOR.- disse...

Hazeltine é bom. Mas muito melhor é a musa da capa (fora os gansos). A desvantagem do pianista é que ele utiliza o mesmo critério adotado por Bill Evans em seus trios: dá muito espaço p'ro contrabaixista. Haja saco!

Salsa disse...

Capaça, né não meninos?
Predador, no quesito "espaço para baixista", Bill ainda é imbatível.

Salsa disse...

PS - será que vão afogar os gansos?

Brunão disse...

Esse cs é excelente. Valeu pela dica Salsa.

edú disse...

Modestamente, escrevi uma resenha no Jazzseen a respeito de Hazeltine por ocasião da passagem dos seus 50 anos de idade.
http://jazzseen.blogspot.com/2008/01/ny-dream.html
Seus trabalhos,na minha opinião, sempre apresentam um excelente nível de qualidade e interesse.Num conjunto estruturado na forma de trios,quartetos e sexteto.Meu trio favorito com sua liderança tem o contrabaixista Peter Washington e o baterista Louis Hayes como colegas e se apresentam como The Classic Trio.Todavia, o pianista que Hazeltine assume como maior influência é o classudo Buddy Montgomery (irmão de Wes) - infelizmente morto 2009.O selo japonês Vênus adora colocar essas mulheres desnudas nas capas.Observar q todas são estrangeiras.Afinal a mulher nipônica ideal é incapaz por pudor e aversão moral de prestar-se a isso.