O show After de big rain, que bem serviria para intitular o dia seguinte do festival, foi bastante consistente musicalmente. A sonoridade oriental que prevalecia nos temas não era algo que distoava do bom e velho jazz. Aliás, já disse isso antes, a confraria consegue utilizar os elementos de diversas culturas equilibradamente, sem tirar nem pôr, propiciando um amálgama
sonoro envolvente, balançante, com clima jovem, que permite ao jazz dar uma boa e saudável respirada. A participação de Loueke tem tudo a ver com isso. Seu modo de tocar, harmonizando com um preciso contratempo ou inserindo frases curtas e cíclicas, propiciou um balanço especial à apresentação e mostrou que é possível fazer jazz de qualidade usando diversas dicções.
Esse equilíbrio musical, contudo, não é simplesmente tirado da cartola - é produto de muito trabalho, como disse Daniel Friedman ao meu amigo e baterista Dudu. Usar elementos rítmicos diversos com precisão requer conhecimento de causa. Friedman, em busca de novos sons, costuma passar temporadas em diversas partes do mundo para melhor absorver esses elementos e articulá-los à sua pegada. Proposta que parece ser dividida por todos os
integrantes do grupo.
Avishai estava em uma noite inspirada. Seu sopro solar, sem surdina, invadiu o largo do Rosário e tomou de assalto o grande público presente. As frases límpidas ressoavam nas velhas paredes dos casarios, insuflando vida e alegria na histórica cidade de Ouro Preto. A sua desenvoltura no palco mostrou a crescente segurança do antes tímido jovem músico. Segurança talvez conquistada com o auxílio explosivo de algumas doses de pinga e outras tantas garrafas de cerveja, alegremente degustadas no palco. Preocupei-me quando Avishai iniciou uma performance utilizando um pedal de volume (pensei: "a cachaça pegou o
cara de jeito"). Preocupação que logo se mostrou inócua. O jovem sabia o que estava fazendo, ele ainda tinha o controle da cena. O resultado foi mais que satisfatório. Um belo fim de noite.








