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Após os shows do primeiro dia, secas as garrafas de vinho, incorri em juvenil erro: enchi a cara de cerveja. Contagiado pela alegria da noite, acompanhado pelos bons amigos Ethel e Francis Juif (tataraneto de Espinosa) e por uma bela senhorita de tez azulada, possivelmente uma musa a serviço de Vênus, dediquei-me desmesuradamente ao suco de cevada. "Noves" fora, valeu a pena.
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A chuva que caiu no final da tarde do dia 19 motivou-me a ficar mais um pouco na cama, ninando dona Ressaca. Breve cochilo foi interrompido pela venusiana, que sorria ao meu lado com uma garrafa de vinho na mão: "abre?" Irresistível solicitação. Miraculosamente de pé, partimos para a segunda noitada de jazz.
Para minha sorte, a chuva atrasou o início dos shows. Conseguimos chegar a tempo de curtir a excelente apresentação do grupo liderado pelo baixista mineiro
Leonardo Cioglia. Ainda não conhecia o trabalho do camarada, mas a boa companhia com quem partilharia a cena era uma boa promessa.
O quinteto se completou com
Aaron Goldberg (pianista quase brasileiro, já participou de festivais anteriores),
Mike Moreno (jovem guitarrista com fraseado bem articulado),
John Ellis (tenorista que, agora sim, depois da apresentação restrita com
Kate
Schutt, pode mostrar que sabe comandar seu instrumento) e
Antonio Sanches (baterista que tem dominado a cena contemporânea e, sem dúvida, é excelente instrumentista). Os temas apresentados fazem parte do novo trabalho de
Cioglia, que, assim, se revela como um bom compositor, além de um bom instrumentista e arranjador. A promessa, enfim, foi cumprida: o show foi muito bom.
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Quando
Duduka da Fonseca subiu ao palco, abrimos a segunda garrafa: um bom malbec argentino. Eu esperava pela performance da clarinetista e saxofonista
Anat Cohen, que dividiria os sopros com o inquestionável trompetista varginhense
Cláudio Roditi. 
Ah, meus amigos, como a menina está tocando... Já é merecedora de uma sessão lá no jazzseen (elas tocam jazz). A música parece possuí-la.
Incorporada, balançante,
Anat (foto, ao meu lado) faz o público silenciar para ouvi-la. Agilidade, alegria, feeling e muito swing perpassam suas performances - do choro ao jazz. O que dizer do pianista
Hélio Alves? Ele também passeia com desenvoltura pelas teclas do seu piano, sabendo ser percussivo ou suave
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quando o clima solicita. O cara é uma fera!
Guilherme Monteiro, o guitarrista, comedido e de semblante austero, mostrou-se eficiente com sua guitarra. Duduka, como de praxe, mostrou porque é considerado um dos melhores da atualidade.
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Para mim, a viagem já estava paga. Já não me sentia tão ameaçado pelas presenças de Mart'Nália e Madeleine Peiroux, que apavoraram meu imaginário durante boa parte da viagem para Ouro Preto.
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PS - Infelizmente, como todas epifanias, não foi possível registrar em fotos a musa azul. Aliás, eu fotografei, mas as fotos desapareceram misteriosamente. Coisa dos deuses do Olimpo.