quarta-feira, 25 de abril de 2012

Jazz nas montanhas capixabas

O primeiro semestre de 2012 tem sido alvissareiro para os capixabas apreciadores da boa música. Há pouco, nos deleitamos com o festival da praia de Manguinhos, agora chegou a vez das montanhas. Acontecerá no início de junho, em Santa Teresa, aprazível reduto ao norte de Vitória, o primeiro festival internacional de jazz e bossa.

Os organizadores, atentos às idas e vindas dos grandes músicos, aproveitaram-se da proximidade com o festival de Rio das Ostras e convidaram alguns astros que participarão deste que já se tornou uma tradição no Brasil (atrai milhares de crianças, jovens, adultos e mais que adultos ao litoral norte do Rio de Janeiro). Destaque-se que as apresentações em Santa Teresa também serão gratuitas.



Os astros convidados são o grupo Azymuth (que contará com grande guitarrista Hélio Delmiro), a cantora Ithamara Koorax, o guitarrista e violonista Ricardo Silveira e a All Star Band (com o baixista Arthur Maia e o baterista Kiko Freitas). Os músicos capixabas estarão muito bem representados por Bruno Mangueira, Pedro Alcântara e Fabiano Araújo.
Para os apreciadores do r&b (eu, entre eles) a grande atração será o guitarrista californiano Roy Rogers & The Delta Rhythm King, promessa de arrebatamento para os fãs do slide. O percussionista nova-iorquino Scott Feiner também mostrará sua arte  com o Jazz Pandeiro.
Eis a programação:
- Dia 1º de junho - Sexta-feira
19h Abertura Oficial - Parque de Exposições e Eventos
20h Show regional - Bruno Mangueira
22h Show nacional - Azimuth e Hélio Delmiro
00h Show internacional - Roy Rogers & The Delta Rhythm King
- Dia 02 de junho - Sábado - Parque de Exposição e Eventos
14h Auto Top 30 - 1o Encontro de veículos Destaques Veteran Car Club
18h Show regional - Pedro Alcântara e Convidados
20h Show nacional - Ithamara Koorax
22h Show nacional - Ricardo Silveira e All Star Band
- Dia 03 de junho - Domingo - Praça Augusto Ruschi
10h Desfile de Veículos Antigos Veteran Car Club
11h Show regional - Fabiano Araújo
12h30min Show Internacional - Scott Fiener Jazz Pandeiro

domingo, 8 de abril de 2012

Sábado de aleluia e jazz

Cheguei tarde para ouvir o Trio 22, grupo formado por Bruno Venturin, Fausto Pizzol e Diego Frasson. Meninos (já nem tão meninos assim) que sustentam uma das trincheiras do jazz vitoriano, lá na rua da Lama. Cheguei a tempo de ouvir as jovens promessas selecionadas pela patrocinadora do evento (a Fames). Promessas que, se seguirem as orientações dos seus bons mestres, poderão alçar belos vôos no céu musical.

A primeira boa atração apreciada poreste admirador do jazz, foi o grupo Brasilidade Geral (foto), capitaneado pelos irmãos Rocha e por Bruninho. Os arranjos dos sopros (dois trombones, dois saxes, um trompete) são impecáveis. Acrescente-se a dinâmica do grupo, sempre muito equilibrada. Agradou-me especialmente o tema composto pelo excelente saxofonista Roger
Rocha (o segundo interpretado). Os jovens músicos fizeram show para qualquer palco desse mundinho cão.

Posso dizer que a noite estava tão agradável que a idéia orquestrada por sei lá quem de interromper o som (possível interferência do patrocinador) para a apresentação de uma banda de congo não conseguiu me tirar do bom astral. Lembrei que até eu gravei um congo (devidamente transfigurado pelo arranjador Wanderson Lopes). Enfim, o congo é a identidade cultural o ES e não me furtei a curtir os belos e longos solos de casaca.

A atração que eu aguardava veio a seguir: Marcelo Coelho e Rodrigo Dominguez. O capixaba radicado no mundo e o portenho idem. O som dos dois saxofonistas eu já conhecia de cds. Som de vanguarda, que poderia soar estranho aos ouvidos de jovens ouvintes. Apreensão boba, a minha.
A performance do grupo foi apoteótica para este que agora escreve e também para todos aqueles que estiveram em Manguinhos para curtir jazz.

Os patterns do baixo e a pulsação precisa do baterista (perdoem-me por não lembrar seus nomes, camaradas) mantiveram os dois solistas num ambiente propício a grandes viagens. Marcelo e Rodrigo mostraram-se como são: excelentes instrumentistas com uma capacidade ímpar de criar trilhas com as pedras que a harmonia lhes fornece. Embriaguei-me com a radical sonoridade explorada pelo grupo que, ao vivo, pôde apresentar toda sua expressividade.

O que estava bom ficou ainda melhor quando Ademir subiu ao palco para uma jam (o tema foi composto por Rodrigo especialmente para esse momento) - três cachorros grandes arquitetando labirintos sonoros fantásticos. O show, como um todo, propiciou momentos inesquecíveis de força e lirismo que renovaram a minha crença de que o jazz ainda tem uma longa vida pela frente.

A noite encerrou com a sempre correta apresentação do grande músico Gilson Peranzetta (em show dedicado ao pianista Luís Eça), que mais uma vez mostrou aos vitorianos e serráqueos a sua sensibilidade de arranjador e intérprete. Detaque-se a luxuosa participação, ao violão, de Chico Pinheiro.

PS - depois eu postarei alguns vídeos gravados por Luiza, minha assessora e filha.

sábado, 7 de abril de 2012

Jazz & Blues em Manguinhos


Os bons ventos sopram sobre o Espírito Santo.

Após vários anos, conseguiu-se, enfim, produzir um festival de jazz (ou jazz e blues, como queiram) em nossa bela terra. O local escolhido para esse primeiro encontro não poderia ser melhor: a praia de Manguinhos, bucólico recanto sito em Serra, a alguns minutos de Vitória. Não há como não congratular os envolvidos na produção do evento, pois, como costumamos dizer, parece que tem uma queixada de burro enterrada em algum lugar por aqui, emperrando quaisquer iniciativas.

A programação destaca atrações locais e algumas nacionais. Entre as locais, privilegiou-se a participação dos professores e alunos da Fames (faculdade de música, um dos patrocinadores), que, há pouco tempo, abriu as portas para a música popular e tem propiciado o surgimento de alguns talentos na arte musical. Obviamente, esse aspecto acabou por amarrar as mãos dos produtores, que não puderam incluir alguns nomes que, nos últimos anos, têm mantido acesa a chama do jazz no Espírito Santo (Zé Moreira, Fabiano Araújo e Wanderson Lopes, por exemplo). Prática que, segundo um dos organizadores, se esforçarão para não repetir no próximo ano.

Mas alguns jazzistas históricos foram incluídos: o trio formado por Afonso Abreu, Neneco e Grijó (que, infelizmente, não assisti); o guitarrista Gean Pierre (com alunos da Fames), o valente Trio 22 (Bruno, Fausto e Diego - que sempre estão na Lama mostrando o bom e velho jazz). Outro grupo que merece a atenção do público é o Brasilidade Geral, que se apresentará hoje (lá estarei para conferir os seus bem elaborados arranjos para sopros).

Não pude curtir completamente o som da sexta (os amigos do Big Bat blues band contaram com a participação de Jefferson Gonçalves, e deve ter sido bom - como sempre). Ouvi apenas o francês radicado em Vitória, Jeremy Naud, mais voltado para world music (a participação luxuosa de Wanderson Lopes acrescentou mais brilho à cena). A curiosidade ficou por conta do cantor popular local Carlos Papel (outro convidado de Naud), que arriscou arranjos com groove jazzy em duas de suas boas composições, mas, definitivamente, apesar de divertido, o jazz não é sua praia.


quarta-feira, 5 de outubro de 2011

De volta pra casa


Caramba, como foi difícil achar um maço de continental sem filtro! Consegui achar um, já amarelado pelo tempo, no armazém do Agenor, em Mucurici.

Enfim, cheguei no meu quintal. E encontrei na caixa postal um cd que me foi enviado do japão. O disco é um disco de música brasileira, com direito a banquinho e violão (curioso como os japas curtem os sons do mundo). Pilotando os dois instrumentos está Pituco Freitas. Um cara corajoso, esse tal Pituco. Enfrenta godzilas, tsunamis, terremotos, furacões e o desafio maior de, com a voz e os acordes do seu violão, defender temas
de figuras que não primam pela simplicidade, como é o caso de Johnny Alf. O resultado foi um disco agradável de se ouvir, que merece ser ouvido e reouvido. E foi isso que eu fiz.

Estiquei-me na rede, liguei meu continental curtido e abri a garrafa de cipó-cravo que ganhei em São Mateus e deixei o cd rolar com o repeat ligado.

Curtam Disse alguém (versão sensacional de All of me, já defendida por João Gilberto) e Eu e a brisa.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Medeski, Martin & Wood + Bill Evans at Rio das Ostras



O show mais esperado pela meninada que dominava a platéia do sábado, enfim, estava começando: o power trio Medeski, Martin & Wood mais o saxofonista Bill Evans foram anunciados.
O som começou pesado como se esperava. E lá estava eu, tomado pelo clima rocker, fusion, jazz. Descobri, logo nos primeiros acordes, do que eu senti falta no show dos casacos amarelos: a paixão, a volúpia, que teve de sobra na apresentação do trio novaiorquino.

A performance do baterista Billy Martin é contagiante. Mão pesada, Billy não tem pudor em descer o bambu nos tambores e pratos, e, nos momentos de possessão, chegava a tocar em pé. O baixista Chris Wood mostrou um vasto domínio do seu instrumento, seja elétrico, seja acústico. Abusou, até, quando sacou o bottleneck e começou a deslizar pelo braço do seu instrumento, produzindo uma sonoridade ímpar (cf no vídeo).


O tecladista John Medeski buscava progressões harmônicas simples, mas sem deixar de trafegar em linhas outsides, mantendo a cama arrumada para o time brincar à vontade. Bill Evans, o saxofonista convidado, não negou ao que veio e mostrou sua verve funk-jazz com uma fluidez exemplar. O clima foi de festa, tanto no palco quanto na platéia.

Para mim, o festival terminou aí. Voltei feliz para casa.

Nicholas Payton Sexxxtet at Rio das Ostras 2011


Dom Casmurro - foi assim que alguém se referiu ao trompetista Nicholas Payton, que fez o segundo show da noite de sábado. Realmente, o cara não estava em seus melhores humores (se é que os tem). Casmurrice à parte, estava eu preocupado com o que seria apresentado no palco principal: se o rolo compressor fusion de alguns de seus trabalhos ou se seria levado pelas águas do mainstream jazzístico.

Não aconteceu nem um, nem outro. Payton, no entanto, manteve sua verve de experimentador e seguiu por um mix soul-jazz, com arranjos até interessantes, buscando explorar a sensualidade e a introspecção peculiares ao ritmo. Arriscou-se até, a la Chet Baker, a umas cantorias (que muitos acharam dispensáveis). O uso do rhodes favoreceu aquele clima do final dos sessenta (especialmente encontradas nas baladas do Return to forever). Pra não dizer que não tocou nenhum standard, sapecou uma versão interessante de Days of wine and roses (veja aqui).

Deixarei o vídeo de seu novo trabalho:

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Rio das Ostras: A noite em que a platéia calou


Quando a noite caiu sobre o sábado não trouxe nada que augurasse tragédias para o palco da Costazul. Ela chegou clara e fresca. Quando os problemas começaram a surgir, pensei que a nau naufragaria. Foi então que entrou em cena o Javier,técnico de som que acompanha o pianista cubano
Roberto Fonseca.

Sim, essas linhas iniciais são para agradecê-lo pelo excelente trabalho: graves, médios e agudos, tudo em seu devido lugar. Algo que até então não acontecera com tamanha eficácia. Explicou-me Javier que, em determinados momentos, tem-de que produzir alguma mágica. E ele conseguiu.

Enfim, era uma noite de magos. E o mago que dominou a cena e a platéia foi o pianista Roberto Fonseca. Ainda durante a passagem de som, constatou que havia algumas teclas do Steinway que estavam agarrando (cf. foto). O show atrasou em função do problema, que não foi resolvido. Tudo estava nas mãos e dedos do jovem cubano, que não titubeou: o som começou com um clima que rapidamente dominou o público.

A magia que emanava do piano e de toda banda (não se ouvia aquela porradeira que costumamos equivocadamente associar aos ritmos latinos), a leveza das performances dos músicos, o perfeito equilíbrio, a dinâmica impressionante que os músicos
conseguiam impor nas músicas interpretadas são elementos raros de se ouvir.

O momento mais envolvente está no vídeo (perdi algumas notas no início): a bela balada que fez a platéia calar-se. Momento de um impressionante lirismo que embalaria a alma mais dura. Para mim, já seria suficiente para uma noite.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Casacos amarelos


A noite de sexta ainda trouxe dois shows: Yellowjacket e Nuno Mindelis (este, deixei de lado pois já assistira à tarde). Permiti-me assistir a apresentação do primeiro. Queria ouvir de perto o sopro de Bob Mintzer, um dos grandes nomes do saxofone contemporâneo.

O grupo fundado pelo tecladista Russell Ferrante e pelo baixista Jimmy Haslip é uma referência quando se fala na fusão de jazz com as diversas linguagens do universo pop. O grupo, não há como dizer o contrário, é competente dentro de sua proposta. No entanto, apesar de Haslip afirmar (no release) que eles sempre buscam o novo, a sonoridade e a estrutura dos temas ainda parecem estar firmemente ancoradas duas ou três décadas atrás. Essa constatação seguiu-se de uma boa dose de enfado, que fui curar com doses de outras bebidas mais compatíveis com meu paladar.


A bossa da Jane

Jane Monheit sucedeu José James no palco principal. A distância entre as performances dos dois astros foi, ao meu ver e ouvir, grande. Ainda contaminado pela força do primeiro show, julguei a apresentação da serpeante renascentista Jane Monheit um tanto quanto frágil.

Minha opinião, no entanto, foi um pouco modificada ao assistir os vídeos que gravei. O fato é que as propostas são bastante diferentes. Jane mergulhou no great american song book e também, para a alegria do público, sapecou uma série de bossas, e por aí ficou. Ela fez interpretações comedidas mas honestas (embora eu dispensasse as bossas - essas sim, frágeis). Jane é uma cantora que sabe usar os seus recursos naturais, mas, pode ser impressão minha, pareceu-me que ela acha possuir mais do que realmente tem. Acho que o som vai bem num coquetel ou num jantar íntimo. Pano de fundo, pois.


segunda-feira, 27 de junho de 2011

José James


À noite, na sexta-feira, titubeei em ir assistir o show de abertura, pois fui convidado por uns músicos para uma jam. Como o som estava demorando e o pessoal estava com muito "profissionalismo" para meu gosto, eu resolvi me mandar pro palco principal e apreciar os shows programados. Enfim, este era o lugar apropriado para profissionais.

São esses acontecimentos que me fazem acreditar em deus. Por pouco, muito pouco, eu teria deixado de assistir o show espetacular protagonizado por José James e banda. O jovem magrelo e com visual de rapper, nascido em Minneapolis, mostrou-se um gigante quando segurou o microfone e começou a entoar os temas que escolheu para a sua performance. Ouvi embevecido as interpretações de, entre outras, Save your love for me, Equinox e Moaning (esta, que finalizou o show, está no vídeo postado).

José James é, sem sombra de dúvida, um cantor de jazz. Dos bons. E nada ortodoxo - os seus arranjos conjugam com elegância elementos da tradição com a sonoridade contemporânea. Sua performance foi uma das que conseguiram deixar a platéia ligada do começo ao fim.