Dom Casmurro - foi assim que alguém se referiu ao trompetista Nicholas Payton, que fez o segundo show da noite de sábado. Realmente, o cara não estava em seus melhores humores (se é que os tem). Casmurrice à parte, estava eu preocupado com o que seria apresentado no palco principal: se o rolo compressor fusion de alguns de seus trabalhos ou se seria levado pelas águas do mainstream jazzístico.
Não aconteceu nem um, nem outro. Payton, no entanto, manteve sua verve de experimentador e seguiu por um mix soul-jazz, com arranjos até interessantes, buscando explorar a sensualidade e a introspecção peculiares ao ritmo. Arriscou-se até, a la Chet Baker, a umas cantorias (que muitos acharam dispensáveis). O uso do rhodes favoreceu aquele clima do final dos sessenta (especialmente encontradas nas baladas do Return to forever). Pra não dizer que não tocou nenhum standard, sapecou uma versão interessante de Days of wine and roses (veja aqui).
Quando a noite caiu sobre o sábado não trouxe nada que augurasse tragédias para o palco da Costazul. Ela chegou clara e fresca. Quando os problemas começaram a surgir, pensei que a nau naufragaria. Foi então que entrou em cena o Javier,técnico de som que acompanha o pianista cubano
Roberto Fonseca.
Sim, essas linhas iniciais são para agradecê-lo pelo excelente trabalho: graves, médios e agudos, tudo em seu devido lugar. Algo que até então não acontecera com tamanha eficácia. Explicou-me Javier que, em determinados momentos, tem-de que produzir alguma mágica. E ele conseguiu.
Enfim, era uma noite de magos. E o mago que dominou a cena e a platéia foi o pianista Roberto Fonseca. Ainda durante a passagem de som, constatou que havia algumas teclas do Steinway que estavam agarrando (cf. foto). O show atrasou em função do problema, que não foi resolvido. Tudo estava nas mãos e dedos do jovem cubano, que não titubeou: o som começou com um clima que rapidamente dominou o público.
A magia que emanava do piano e de toda banda (não se ouvia aquela porradeira que costumamos equivocadamente associar aos ritmos latinos), a leveza das performances dos músicos, o perfeito equilíbrio, a dinâmica impressionante que os músicos
conseguiam impor nas músicas interpretadas são elementos raros de se ouvir.
O momento mais envolvente está no vídeo (perdi algumas notas no início): a bela balada que fez a platéia calar-se. Momento de um impressionante lirismo que embalaria a alma mais dura. Para mim, já seria suficiente para uma noite.
A noite de sexta ainda trouxe dois shows: Yellowjacket e Nuno Mindelis (este, deixei de lado pois já assistira à tarde). Permiti-me assistir a apresentação do primeiro. Queria ouvir de perto o sopro de Bob Mintzer, um dos grandes nomes do saxofone contemporâneo.
O grupo fundado pelo tecladista Russell Ferrante e pelo baixista Jimmy Haslip é uma referência quando se fala na fusão de jazz com as diversas linguagens do universo pop. O grupo, não há como dizer o contrário, é competente dentro de sua proposta. No entanto, apesar de Haslip afirmar (no release) que eles sempre buscam o novo, a sonoridade e a estrutura dos temas ainda parecem estar firmemente ancoradas duas ou três décadas atrás. Essa constatação seguiu-se de uma boa dose de enfado, que fui curar com doses de outras bebidas mais compatíveis com meu paladar.
Jane Monheit sucedeu José James no palco principal. A distância entre as performances dos dois astros foi, ao meu ver e ouvir, grande. Ainda contaminado pela força do primeiro show, julguei a apresentação da serpeante renascentista Jane Monheit um tanto quanto frágil.
Minha opinião, no entanto, foi um pouco modificada ao assistir os vídeos que gravei. O fato é que as propostas são bastante diferentes. Jane mergulhou no great american song book e também, para a alegria do público, sapecou uma série de bossas, e por aí ficou. Ela fez interpretações comedidas mas honestas (embora eu dispensasse as bossas - essas sim, frágeis). Jane é uma cantora que sabe usar os seus recursos naturais, mas, pode ser impressão minha, pareceu-me que ela acha possuir mais do que realmente tem. Acho que o som vai bem num coquetel ou num jantar íntimo. Pano de fundo, pois.
À noite, na sexta-feira, titubeei em ir assistir o show de abertura, pois fui convidado por uns músicos para uma jam. Como o som estava demorando e o pessoal estava com muito "profissionalismo" para meu gosto, eu resolvi me mandar pro palco principal e apreciar os shows programados. Enfim, este era o lugar apropriado para profissionais.
São esses acontecimentos que me fazem acreditar em deus. Por pouco, muito pouco, eu teria deixado de assistir o show espetacular protagonizado por José James e banda. O jovem magrelo e com visual de rapper, nascido em Minneapolis, mostrou-se um gigante quando segurou o microfone e começou a entoar os temas que escolheu para a sua performance. Ouvi embevecido as interpretações de, entre outras, Save your love for me, Equinox e Moaning (esta, que finalizou o show, está no vídeo postado).
José James é, sem sombra de dúvida, um cantor de jazz. Dos bons. E nada ortodoxo - os seus arranjos conjugam com elegância elementos da tradição com a sonoridade contemporânea. Sua performance foi uma das que conseguiram deixar a platéia ligada do começo ao fim.
A tarde de sexta-feira estava azul. Céu aberto e com sol agradável do inverno. O dia começou a esquentar com a chegada do californiano Tommy Castro ao palco da Lagoa de Iriry. O clima estava apropriado para o guitarrista mostrar um pouco do blues da costa oeste.
Tommy, 56 anos, traz no seu currículo o prêmio de melhor bluesman de 2008 (Blues Music Award for Entertainer Of The Year) e uma consolidada carreira. O seu som tem algo de funky/soul com uma boa dose de r&b. Os arranjos lembram, em alguns momentos, o balanço de James Brown. Muito colabora para isso a presença do naipe de sax e trompete. Ficará fácil para vocês perceberem ao assistirem o vídeo postado a baixo (Nasty habits).
O início do show, para não perder o costume, deixou o som dos sopros fora da cena. Felizmente, o "técnico" acertou logo depois. Apesar dos tropeços da sonorização o resultado final foi de muito balanço, culminando com uma jam explosiva em cima do tema Sex machine, do bom e querido Brown.
O pessoal que curte a seara do blues deve estar rindo à-toa. A produção do festival de Rio das Ostras caprichou bastante nesse quesito (possíveis dedinhos do Big Joe Manfra e de Jefferson Gonçalves). Entre os que participaram da bela festa, agradou-me bastante o show de Bryan Lee (aka Braille Blues Daddy), o
representante de Louisiana .
Cego desde os oito anos, restou a mr. Lee organizar seu universo com sons. Sons de guitarra, de escalas blues e de muitas estórias contadas entre as pungentes interpretações realizadas por sua banda. Banda excelente, por sinal. O baterista John Perkins não tirava o sorriso do rosto
enquanto batia com força os seus tambores, segurando a pulsação com o auxílio do baixista Slim Louis. Destaque para o jovem guitarrista Brent Johnson, que, além de belos solos, propiciou diálogos sensacionais com o band leader.
Curtam um pouco no vídeo produzido por esse escriba:
A dose de saudosismo, pelo menos para este que lhes escreve, foi ouvir e ver o mais que memorável trio brasileiro: Azimuth. Lembrei-me da boa estranheza causada pela audição, em meados dos anos setenta, do lp responsável pelo primeiro grande sucesso do grupo: Linha do horizonte (tocado no final do show). Eu, na
época, fã ardoroso do rock'n'roll, me deixei levar pela sutileza e também pelo peso que havia (e ainda há) na mandada do trio.
A apresentação em Rio das Ostras mostrou que José Roberto Bertrami, Ivan "Mamão" Conti e Alex Malheiros mantêm a verve musical que estava presente no início de suas carreiras. O toque smooth, a leveza dos arranjos (não se ouve aquelas convenções ultra complicadas de alguns contemporâneos) e a precisão nas interpretações são componentes que tornam o som do trio
altamente acessível para todos os ouvidos. E lá estava uma platéia atenta e participativa, mais que mera testemunha, cantarolando os temas mais conhecidos do nosso Azimuth.
O segundo show da noite de quinta-feira foi o da trompetista Saskia Laroo. Querem-na versão feminina de Miles Davis e, considerando a sua apresentação (cf o vídeo), ela bem que tem uns tiques milesianos.
A trompetista cinquentona, mas cheia de energia, se diz chegada num amplo leque de estilos: do jazz à world music. Gosta de experimentar, a maluquinha - coisa dos nascidos em Amsterdã. Para isso, ela conta com a ajuda do pianista/tecladista Warren Byrd, que também parece gostar de uma viagem.
A faceta experimental da holandesa foi apresentada nos palcos de Rio das Ostras ao reunir rappers, percusionistas e pedais para turbinar seu instrumento. O resultado desagradou os puristas (que preferem-na atacando os standards do songbook americano), mas agradou a meninada, que foi ao delírio.
Cheguei cedoao palco principal para ver a passagem de som e curtir o vai e vem da produção. O bom de ser credenciado como membro ativo da imprensa é poder ir ao backstage ver os preparativos dos músicos. A rapaziada procurando camarins, encontrando amigos de outros festivais e, melhor, eu, com meu inglês "debukizondetêibou", entabulando longas conversas com os astros de plantão.
Quem chegou junto comigo foi o grande guitarrista Ricardo Silveira, que veio acompanhado com um time de primeira, incluindo o excelente naipe formado por Jessé Sadoc e Marcelo Martins, o baixista Rômulo Gomes e o grande astral e baterista André Tandeta (que também tem suas cicatrizes de tombos de moto - a coisa foi mais tensa pro lado dele do que para o meu).
O guitarrista falou-me um pouco sobre seu novo disco, Até amanhã, e sobre seu percurso desde Bom de tocar, o primeiro sucesso, lançado há 26 anos. O disco traz antigas canções com arranjos muito bons (eu tenho o cd) e novos temas em que se percebe aquilo que o guitarrista afirmou no nosso papo: seu vocabulário musical cresceu bastante com o passar do tempo, permitindo-lhe usar elementos especiais em cada tema executado.
A indubitável habilidade de Ricardo Silveira como instrumentista é corroborada pelos inúmero convites patra tocar com os grandes nomes do cenário internacional (Grusin, Toots, Metheny, Ernie watts e mais um monte de gente), reforçando o seu nome como uma referência para os apreciadores da guitarra. Modesto, perguntou-me se o seu som teria a ver com a cena da noite (ele abriria os shows). Respondi-lhe que os outros é que deveriam se preocupar em manter o nível. Palavras que se confirmaram com a excelente performance da banda.
O senão fica por conta dos técnicos de som que, mais uma vez, pisaram na bola (já havia acontecido no show de Mindelis). O naipe só passou a ser ouvido na metade do primeiro tema - o solo de Sadoc passou batido e o de Martins só foi possível ouvir quando estava no final. Lamentável. Segundo Martins, isso sempre acontece. Deve existir um complô contra os sopros.